skim board_buarcos (5)


“não há livros de poesia, há poemas”
elisa scarpa

não gosto de epígrafes
sequer da palavra

até pensei em escrever
um livro de páginas
em branco encimadas
pelas ditas

pensei mas também
pensei no papel
que iria estragar
e não o fiz

já disse e escrevi
que nunca publicaria
um livro e vão dois

seja esta mais uma
contradição
em nome da amizade

essa sim não estraga
papel não polui

isto não é um poema

(skimming; buarcos; 2011)

a beleza do sal (199)


plantei uma flor
no mar

o genocídio continua em gaza
o genocídio continua em gaza

na areia a meu lado
os teus olhos
procuraram a flor
sorriram ao vê-la

a guerra continua na ucrânia
a guerra continua na ucrânia

por entre as ondas
deste-me um beijo

a fome e a guerra em áfrica
a fome e a guerra em áfrica

depois acordei
e só me lembro
deste sonho

mediterrâneo é nome de cemitério
mediterrâneo é nome de cemitério

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)

crónicas da xávega (589) – bota! 2025


mais um ou menos um

esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação

sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas

a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra

são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam

faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais

por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir

não esqueças
a desumanidade não pára

(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)

os moliceiros têm vela (560)


não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho

em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o

carteirista era a sua alcunha
ti abílio

nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça

um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio

a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir

(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)

a beleza do sal (198)


eram três velhos magros

o primeiro trazia uma vela
o segundo uma bola
o terceiro uma guitarra

eram três velhos magros

à sua frente uma criança
fugia e a cada passo mais
se afastava dos três velhos

são três velhos magros

à sua frente um homem
foge ainda foge

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)

postais da ria (543)


poemas de amor 
gostava de os escrever
e de os entregar

aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças

escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência

merda álvaro
também eu sou lúcido

não não sou daqui
recuso-me a ser

poemas de amor
não sei escrever

(porto de abrigo; torreira; 2009)