os moliceiros têm vela (579)


a eugénio de andrade

não há palavras
interditas perante o horror
netanyahu assassino

bombas e mísseis
lavraram a terra
que o sangue regou

nos escombros de gaza
um braço nasce
uma perna perdeu-se

desumana lavoura esta
semeadura de mortos
colheita de amputados

netanyahu assassino
não há palavras
interditas perante o horror

(moliceiros; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2014)

postais da ria (568)


tudo velho no ocidente
cheira-se o sangue
do médio oriente

no corno de áfrica
a vida não vale um corno
a ponta sequer

tudo velho no ocidente
mata-se em áfrica
no médio oriente

dá-me ouro petróleo
metais raros gaz natural
morrer é normal

tudo velho no ocidente
morre-se jovem em áfrica
no médio oriente

não vale um corno
este ocidente

(a mão; o saco de berbigão; torreira; 2015)

crónicas da xávega (617)


imagina que não estás aqui
que este não é teu tempo
não vês não ouves não lês

imagina e escreve
um poema de amor
uma história ligeira

pedi-te que imaginasses
porque a realidade
é inimaginável

experimenta
atirar palavras contra o real
e imagina que algo muda

imagina e escreve
um poema de palavras duras
porque duros são estes dias

estás vivo e não precisas
de imaginar basta seres

(xávega; o arribar da manga; praia da leirosa; 2019)