na murtosa ser canalha
era ser miúdo
ser garoto
era ser grande sem ser homem
ser homem era ter palavra
no tempo em que eu
era canalha e não distinguia
os garotos aprendi as palavras
e a ter palavra
continuo a ser canalha
recuso ser garoto
vou escrever um livro
de poesia
inovador
a topo de página
o título do poema
duas linhas abaixo
uma citação pouco conhecida
de um autor consagrado
há que divulgar o que li
a minha ilustrada ilustração
o resto da página em branco
o que eu pretendo
não é que saibam que escrevo
mas que leio muito
que diabo
sou um doutor das letras
Não sei se conhece este filme “Moliceiros” do Adriano Nazareth. É pena o casal de namorados que desfeia um bom trabalho etnográfico.
Agarrado, vai o meu filme “Moliceiros, Tempo para morrer”, do qual já não subscrevo tudo o que disse.
Abraço.
Diamantino Dias
(muito interessante este documentário e a citação de raul brandão, quando afirma ser o moliceiro barco de pesca. quando atravessou a ria de norte a sul, a bordo de um moliceiro, o escritor deve de ter visto as enguias que vinham misturadas com o moliço arrancado ao fundo da ria e pensou “este barco também pesca” – pensou e escreveu. era o tempo da fartura de enguias, mas isso não faz do barco moliceiro um barco de pesca. que sirva de nota a quem descreve o que vê sem saber cuidar do porquê.
não pretendo com isto criticar raul brandão, mas aproveitar para chamar a atenção dos “olheiros” dos nossos dias para quando legendam as suas imagens
a luz corta o silêncio
a luz corta o silêncio
uma vela poisada na memória
acende os dias por
iluminado tempo este
que o silêncio habita
o sol fere magoa sara
a luz quebra-se na ria
o moliceiro cresce no vento
é ave e voa
é a luz que corta o silêncio
se não houvesse homens
quem faria os barcos
quem os manejaria
o futuro dos moliceiros
se o houver
está no querer de quem manda
que homens de fazer
os temos
o rui miguel (russo, índio…) na preparação da regata da ria 2020
foi um dos jovens tripulantes que ganharam a regata do s. paio, de 2021
tem os olhos límpidos
que lembram a ria
quando ainda enguias havia
será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos.
tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade
mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço
entre 2010 e 2021 foram muitos os moliceiros que desapareceram. os que de novo foram feitos não os superam.
não vou citar nomes de homens e barcos, mas seja o ti abílio, amigo do peito, mestre das artes do mar e da navegação – que já não tem moliceiro e por isso não estará presente na regata de hoje -, o símbolo do amor a estas aves tão belas a que deram, por arte e ofício, o nome de moliceiros