se não houvesse homens
quem faria os barcos
quem os manejaria
o futuro dos moliceiros
se o houver
está no querer de quem manda
que homens de fazer
os temos
o rui miguel (russo, índio…) na preparação da regata da ria 2020
foi um dos jovens tripulantes que ganharam a regata do s. paio, de 2021
tem os olhos límpidos
que lembram a ria
quando ainda enguias havia
será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos.
tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade
mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço
entre 2010 e 2021 foram muitos os moliceiros que desapareceram. os que de novo foram feitos não os superam.
não vou citar nomes de homens e barcos, mas seja o ti abílio, amigo do peito, mestre das artes do mar e da navegação – que já não tem moliceiro e por isso não estará presente na regata de hoje -, o símbolo do amor a estas aves tão belas a que deram, por arte e ofício, o nome de moliceiros
entrados no canal de aveiro, com o norte por bombordo os moliceiros dão um ar da sua graça
se importante, para quem concorre, é ganhar a regata, para quem gosta do BARCO MOLICEIRO o importante é que que haja MOLICEIROS para a fazer. e este ano já só foram sete os de classe A.
regata da ria 2021 – uma viagem
um dos momentos mais emocionantes, pela espectacularidade e perícia que exige de toda a tripulação é o "cambar" - movimento em que o moliceiro muda de rumo e passa a apanhar vento pelo bordo contrário.
no caso da regata da ria o "cambanço" dá-se no molhe da pedra, quando os moliceiros deixam o canal principal e entram no canal de aveiro em direcção à eclusa.
como se pode ver na imagem o vento não era muito, mas se olharem bem vêm a alteração da posição da vela, antes e depois de passar o molhe.
nota - não vou à terminologia náutica por não a dominar e limito-me a descrever em palavras simples o que os olhos captam. os especialistas que me desculpem, mas sou apenas fotógrafo e...
(artigo publicado no “Notícias de Aveiro” de 22 de julho de 2021)
No passado dia 15 de Junho iniciou-se o congresso da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA), com a “apresentação da candidatura do Barco Moliceiro a Património Imaterial da UNESCO”.
Por António José Cravo *
Para os amantes do Barco Moliceiro e, num repente, a exclamação é de alegria e satisfação, acompanhada de um finalmente! Depois, pensando melhor, surgem as primeiras questões:
– Que Barco Moliceiro vai ser candidatado? O descrito nas obras consagradas de Ana Maria Lopes, D. José de Castro, Diamantino Dias, Jaime Vilar e Senos da Fonseca? O que veleja ainda em ria aberta?
– Nos canais de Aveiro circulam barcos, a que Diamantino Dias chamou de forma elegante turisteiros, que anunciam “Passeio em Barco Moliceiro Tradicional”.
(“Existem actualmente cerca de 50 barcos moliceiros numa região onde no início dos anos 70 seriam cerca de 3.000 barcos operacionais” – Turismo do Centro. Não cita o século nem a fonte, 3.000!!!!! – nunca em tempo algum. Compreendem a minha preocupação?)
Interessante neste processo é ser a candidatura do Barco Moliceiro apresentada na “Praia da Vagueira, no Espaço Museológico da Arte Xávega”. Faz sentido? E o Município da Murtosa, Pátria do Moliceiro? Aí sim, não seria o local certo para a apresentação? Um pequeno detalhe para aguçar a memória, no quadro comunitário 2007/2013, Ribau Esteves liderou a vertente desconcentrada PROMAR da Região de Aveiro e quando, na sessão pública de apresentação, lhe perguntei que fundos tinha destinado à xávega, a resposta foi: nenhuns. Esclarecedor?
Na publicação e-cultura, de 14 de Junho, do Centro Nacional de Cultura, dá-se nota do evento e escreve-se “Mais recentemente também foi conhecida a intenção das autarquias de Estarreja, Ovar e Murtosa, de candidatarem a arte de construção naval dos moliceiros a Património Cultural Imaterial da UNESCO”. Para a SIC, a candidatura do CIRA engloba também as artes de construção.
Na reportagem da apresentação, o consultor identifica na candidatura o Barco Moliceiro e a Carpintaria Naval da Região de Aveiro.
Enfim, problemas de comunicação.
Feita esta já um pouco longa apresentação, mas que levanta muitas questões, a minha pergunta é: porquê a candidatura à UNESCO – Património da Humanidade – sem, em primeiro lugar candidatar a Património Nacional e obter a classificação? Será que Humanidade vai reconhecer um património que o país não reconhece? O avô reconhece o neto que o pai ainda não reconheceu?
A este respeito pode ler-se no jornal Concelho da Murtosa, de 15 de Julho, em artigo não assinado “ …é ainda necessária a inscrição no Inventário Nacional do Património Imaterial, efectivamente o primeiro passo formal de uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade…”
Num momento em que o mundo vive na incerteza, esta candidatura é, como diz o povo, “fruta da época”. Certos são os 70.000 euros com que os fundos comunitários financiaram este projecto, não sei se há comparticipação nacional a adicionar, mas os 70.000 já é bom.