estes dias

de incerteza se fazem estes dias em que os sábios ignoram e os ignorantes dão aulas de sapiência tempo de bruxas dirás de todos os santos dizem dos defuntos fiéis ou não que tudo incerto é
ninguém mata o que foi

guardo o tempo no fundo dos olhos decoro com palavras as imagens nascem rostos nomes aconteceres não invento passados para ser hoje caminho leve de ter sido porque inteiro sou o que o tempo conta não o que contam abraço o sol e a noite os dias cheios ninguém mata o que foi
raízes

apertam-se as mãos e são letras de palavra dita palavra honrada homens grandes frontais de olhar límpido mãos enormes corações foram eles o vento que enfunou as velas do meu estar com eles naveguei por outras terras e regressei sempre às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)
era uma vez

na bica da proa o sonho navegou ria fora velas enfunadas brancas sempre brancas poiso de palavras de desejos branca a espuma à ré marca de nada mais também eu

sabes

sabes, estou cansado, apetece-me dormir e deixar que volte o tempo em que todos os dias é verão e eu … eu andava sem cuidados pelas ruas
aos amigos

a alegria de estar na ria com os amigos e assistir ao espectáculo das regatas, é um acontecimento que não perco, que não perderei enquanto puder.
o agradecimento ao quim calmaria pela forma como está sempre pronto para mais uma regata e o saber “o que os fotógrafos querem”. boa safra nos mares do norte, quim
ao jim por ter “estado de prontidão” com a sua chata, para o caso de aparecerem amigos à última da hora e que quisessem acompanhar a regata no meio da ria.
ao jorge bacelar, ao silva tavares, à isabel lobo e ao pedro (que vieram de lisboa e do porto, de propósito), pela alegria de estarmos juntos e acontecer fotografia
ao amigo que, do paredão, quando viu chegar a chata, gritou “ah gorim!” – há quantos anos não se ouvia este grito na ria…
haja saúde e para o ano lá estaremos
raízes

vêm de longe trazem nos olhos a limpidez da ria antiga homens inteiros fogem das ribaltas que outros buscam a qualquer preço escondem-se para serem o que sempre foram são eles serão sempre eles as minhas raízes
carta aos donos da terra

ser do mundo cidadão é destino de quem nasce em pobres terras que mundo também o são ah donos da terra guardados os palmos de terra na terra de que donos vos dizeis só essa vossa será porém a ela fugis porque de tão vossa a não quereis à terra o que da terra é digo terra que vos ofereço para que seja toda vossa e nela vós todos que donos sois quereis a paz aí a tereis