a sede

deixei-me algures mas chego aqui cheio de mim bebo no teu sorriso as últimas águas não sei se mato a sede sei que preciso de beber
raízes

apertam-se as mãos e são letras de palavra dita palavra honrada homens grandes frontais de olhar límpido mãos enormes corações foram eles o vento que enfunou as velas do meu estar com eles naveguei por outras terras e regressei sempre às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)
era uma vez

na bica da proa o sonho navegou ria fora velas enfunadas brancas sempre brancas poiso de palavras de desejos branca a espuma à ré marca de nada mais também eu

sabes

sabes, estou cansado, apetece-me dormir e deixar que volte o tempo em que todos os dias é verão e eu … eu andava sem cuidados pelas ruas
aos amigos

a alegria de estar na ria com os amigos e assistir ao espectáculo das regatas, é um acontecimento que não perco, que não perderei enquanto puder.
o agradecimento ao quim calmaria pela forma como está sempre pronto para mais uma regata e o saber “o que os fotógrafos querem”. boa safra nos mares do norte, quim
ao jim por ter “estado de prontidão” com a sua chata, para o caso de aparecerem amigos à última da hora e que quisessem acompanhar a regata no meio da ria.
ao jorge bacelar, ao silva tavares, à isabel lobo e ao pedro (que vieram de lisboa e do porto, de propósito), pela alegria de estarmos juntos e acontecer fotografia
ao amigo que, do paredão, quando viu chegar a chata, gritou “ah gorim!” – há quantos anos não se ouvia este grito na ria…
haja saúde e para o ano lá estaremos
raízes

vêm de longe trazem nos olhos a limpidez da ria antiga homens inteiros fogem das ribaltas que outros buscam a qualquer preço escondem-se para serem o que sempre foram são eles serão sempre eles as minhas raízes
carta aos donos da terra

ser do mundo cidadão é destino de quem nasce em pobres terras que mundo também o são ah donos da terra guardados os palmos de terra na terra de que donos vos dizeis só essa vossa será porém a ela fugis porque de tão vossa a não quereis à terra o que da terra é digo terra que vos ofereço para que seja toda vossa e nela vós todos que donos sois quereis a paz aí a tereis
morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)
era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria
tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também
à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo
não ti zé
não estou na murtosa
nem você agora
era nas regatas de moliceiros
ou bateiras
ou no são paio
que nos encontrávamos
havia sempre um abraço
um sorriso uma salvação
uma salvação ti zé
agora que ninguém o salva
lembro-me do tempo
em que na murtosa
as pessoas se salvavam
vão partindo os amigos
a família desse tempo
e eu vou partindo aos poucos
bocados de mim que se foram
pedaços de outros
que comigo ficam e são raízes
ti zé
você é uma raiz
que fica comigo
abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)
estou vivo, tenho opinião e escrevo-a

cais do bico; regata do emigrante; 2020