venderás o peixe no mercado
aos fregueses fiéis
comprar-to-ão por comodidade
hábito e cansaço
às quintas montarás banca
na feira venderás coisas várias
outros caminharão à tua sombra
serás o chefe não o líder
nas terras piquenas é tão fácil
parecer grande
esqueço-me
com facilidade
o tempo já
não me chega
porque curto
para tanto
lembro-me
com dificuldade
as palavras
sobem a custo
os degraus
do poema e hesitam
antes de
escuto-me
com acuidade
perco-me
muito
encontro-me
tanto
sou ainda
Felisberto Amador molda moliceiros na madeira bruta há quase 50 anos
Estarreja
É um dos últimos embaixadores da arte da carpintaria naval, talhando artesanalmente embarcações tradicionais da ria de Aveiro num estaleiro desactivado situado em Pardilhó
(Luís Ventura)
A freguesia de Pardilhó, no concelho de Estarreja, é uma terra de bons e afamados carpinteiros de construção naval da Ria deAveiro. Entre estes, o mestre Henrique Lavoura é um dos nomes de referência.
No seu antigo estaleiro desactivado de Pardilhó, no acesso à Ribeira da Aldeia, com capacidade para construção e reparação de embarcações até 50 toneladas, muitos aprenderam a arte, mas poucos resistiram.
Felisberto Amador, 61 anos, foi um deles. Aprendeu a arte da construção naval, ao mesmo tempo um património cultural, material e imaterial que se funde com a história local e com a sua própria estória.
A sua vida é uma narrativa criada à volta das ferramentas e utensílios usados na construção de todo o tipo de embarcações. A partir dos 14 anos, Felisberto Amador não teve outra vida. “O meu pai e irmãos eram carpinteiros, mas eu não queria, por isso, fui para casa do meu primo Henrique Lavoura, que tinha um estaleiro, e lá aprendi esta arte”, contou ao Diário de Aveiro. “Verdade seja dita, todos os que trabalham nesta área por aqui são discípulos dele”, sublinha, atestando a importância e conhecimento do primo, cujo espólio pode ser admirado no Centro de Interpretação da Construção Naval, instalado na freguesia de Pardilhó.
Felisberto Amador molda a madeira com uma facilidade que impressiona. “Tudo o que fosse de madeira bruta era comigo”, diz a rir. “Cheguei a fazer um barco moliceiro sozinho, num mês”, atira, com orgulho. Mas depois tudo mudou com as alterações no ecossistema lagunar. O moliço foi desaparecendo da Ria e “chegámos a uma fase em que estivemos muito parados e quase todos desistiram desta arte”. Com o advento da década de1980, “fiquei sozinho a trabalhar, a arte deixou de ter futuro e mandei o meu filho empregar-se porque mal dava para eu comer”.
Felisberto Amador chegou a fazer o luto à arte. “Estava convencido de que isto ia acabar, mas então começou a febre dos passeios turisticos nos canais de Aveiro e isto reavivou, ressuscitou. Foi uma alteração muito grande porque antes disso não havia nada”, recorda.
O regresso à Ria
Começou por construir um mercantel para a empresa Cale do Oiro, um operador turístico aveirense, e, entre outras encomendas, agora está a fazer a manutenção de mais um. Diz–lhe a experiência que “todos os anos estes barcos deviam ter muita atenção, porque da linha de água para cima estão sempre fora de água, secam e estragam-se”. Quando faziam o que lhes estava destinado originalmente, “andavam sempre fresquinhos, carregados com moliço e sal, para cá e para lá. Agora não, levam calor e chuva por cima e duram pouco tempo”.
O último moliceiro que construiu e vendeu foi há três anos e, hoje, mantém um guardado em casa, de estimação, e por gosto.“Como já não há moliço, tenho um barco para que a tradição não morra por aqui, em Pardilhó”, esclarece. Mete-o na água no cais do Nacinho “para brincar e fazer umas regatas na Murtosa e em Aveiro”. “Este ano nem fui”. Antigamente,“ os barcos iam todos daqui, de Pardilhó. Até fragatas iam para o Rio Tejo”, recorda ouvir dizer.
O Centro de Interpretação da Construção Naval, que substituiu o velho barracão existente na Ribeira da Aldeia, além de espaço museuológico, prevê a realização de actividades de construção naval de embarcações tradicionais e formação profissional de carpintaria, entre outras actividades. Homenagear a arte da carpintaria naval é, também,uma forma de apreservar, incentivando os mais novos a aprender e a adquirirem estes conhecimentos junto dos construtores navais ainda em actividade.
Ainda hoje, além de Felisberto, nos seus estaleiros, os construtores navais António Esteves e Arménio Almeida talham artesanalmente muitas embarcações,usando o pau de pontos, onde estão gravadas as medidas das embarcações, a serra de mão, o enxó ou a gata, que serve para erguer peças na embarcação. Para aprender tem de ser com eles. Felisberto Amador não parece muito convencido: “A malta nova é dificil, mas pode ser que consigam atrair algum”.
Atrair a juventude
Hoje é tudo muito efémero e “um moliceiro demora muito a construir”, ajuiza, alertando que os construtores debatem-se, além de tudo, com dificuldades para encontrar boa madeira: “Está muito difícil de arranjar madeira de pinheiro manso”, num contraste preocupante com o que se passava até recentemente. “Antes havia toneladas de madeira de qualidade, em Albergaria-a-Velha, para escolher, mas os fogos destruíram, reduziram tudo a cinza e já não há como havia. Havia pinheiros limpinhos que eram uma maravilha para fazer as imprescindíveis costelas dos barcos moliceiros”. Agora, tem de ir a Alcácer-do-Sal. “É complicado”, sintetiza, com ar de quem nem gosta de falar no assunto.
Para se ser mestre de construção naval, hoje, tem de se “gostar muito”e estar disposto a ultrapassar muitos obstáculos, o que desmotiva mesmo os mais inveterados, como Felisberto Amador: “Enquanto puder vou trabalhando, mas já não consigo fazer um moliceiro num mês, como já fiz”, ri-se, para que não restem dúvidas. “Após um dia de trabalho, quando me deito, dói-me o corpo todo, mas de manhã está tudo bem. Enquanto assim for, vou continuando”, promete
O engenho e a destreza dos mestres
A construção de barcos em madeira no concelho de Estarreja remonta ao século XIX. Segundo a Estatística Industrial do Distrito de Aveiro, de 1867, Estarreja, que então abrangia a Murtosa, registou o lançamento à água de 85 barcos, entre os quais barcos grandes de pesca no mar. O engenho e destreza dos mestres e a abundância da mão-de–obra especializada justificou a fixação, em Pardilhó, em 1937, da delegação distrital dos Sindicatos dos Operários da Construção Naval. Na década de 40/50 havia, só em Pardilhó, mais de 30 carpinteiros navais no activo. Hoje, restam três devidamente homenageados com a atribuição, em 2019, da Medalha de Mérito Municipal, o galardão máximo atribuído pelo município de Estarreja
(nota: de todos os mestres ainda a trabalhar, o mestre felisberto amador (caçoilo) é o único de que não tenho entrevista gravada em vídeo. adiada de ano para ano. vamos ver se em 2021 é de vez.
para ver as entrevistas em video basta entrar no meu canal no YouTube)
de incerteza se fazem estes dias
em que os sábios ignoram
e os ignorantes dão aulas de sapiência
tempo de bruxas dirás
de todos os santos dizem
dos defuntos fiéis ou não
que tudo incerto é
guardo o tempo no fundo
dos olhos
decoro com palavras
as imagens
nascem rostos nomes
aconteceres
não invento passados
para ser hoje
caminho leve de ter sido
porque inteiro
sou o que o tempo conta
não o que contam
abraço o sol e a noite
os dias cheios
ninguém mata o que foi
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada
homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações
foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre
às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)
na bica da proa o sonho
navegou ria fora velas
enfunadas
brancas sempre brancas
poiso de palavras
de desejos
branca a espuma à ré
marca de nada mais
também eu