os moliceiros têm vela (429)


é tão fácil

murtosa; regata do emigrante; 2012
 venderás o peixe no mercado
 aos fregueses fiéis
 
 
 comprar-to-ão por comodidade
 hábito e cansaço
 
 
 às quintas montarás banca
 na feira venderás coisas várias
 
 
 outros caminharão à tua sombra
 serás o chefe não o líder
 
 
 nas terras piquenas é tão fácil
 parecer grande 

os moliceiros têm vela (428)


sou ainda

torreira; regata da ria; 2011
 esqueço-me
 com facilidade
 
 
 o tempo já
 não me chega
 porque curto
 para tanto
 
 
 lembro-me
 com dificuldade
 
 
 as palavras
 sobem a custo
 os degraus
 do poema e hesitam
 antes de
 
 
 escuto-me
 com acuidade
 
 
 perco-me
 muito
 encontro-me
 tanto
 
 
 sou ainda 

entrevista de mestre felisberto amador (caçoilo) ao diário de aveiro de dia 3 de novembro de 2020


mestre felisberto; fotografia de paulo ramos

Felisberto Amador molda moliceiros
na madeira bruta há quase 50 anos


Estarreja

É um dos últimos embaixadores da arte da carpintaria naval, talhando artesanalmente embarcações tradicionais da ria de Aveiro num estaleiro desactivado situado em Pardilhó

(Luís Ventura)

A freguesia de Pardilhó, no concelho de Estarreja, é uma terra de bons e afamados carpinteiros de construção naval da Ria deAveiro. Entre estes, o mestre Henrique Lavoura é um dos nomes de referência.


No seu antigo estaleiro desactivado de Pardilhó, no acesso à Ribeira da Aldeia, com capacidade para construção e reparação de embarcações até 50 toneladas, muitos aprenderam a arte, mas poucos resistiram.


Felisberto Amador, 61 anos, foi um deles. Aprendeu a arte da construção naval, ao mesmo tempo um património cultural, material e imaterial que se funde com a história local e com a sua própria estória.


A sua vida é uma narrativa criada à volta das ferramentas e utensílios usados na construção de todo o tipo de embarcações. A partir dos 14 anos, Felisberto Amador não teve outra vida. “O meu pai e irmãos eram carpinteiros, mas eu não queria, por isso, fui para casa do meu primo Henrique Lavoura, que tinha um estaleiro, e lá aprendi esta arte”, contou ao Diário de Aveiro. “Verdade seja dita, todos os que trabalham nesta área por aqui são discípulos dele”, sublinha, atestando a importância e conhecimento do primo, cujo espólio pode ser admirado no Centro de Interpretação da Construção Naval, instalado na freguesia de Pardilhó.


Felisberto Amador molda a madeira com uma facilidade que impressiona. “Tudo o que fosse de madeira bruta era comigo”, diz a rir. “Cheguei a fazer um barco moliceiro sozinho, num mês”, atira, com orgulho. Mas depois tudo mudou com as alterações no ecossistema lagunar. O moliço foi desaparecendo da Ria e “chegámos a uma fase em que estivemos muito parados e quase todos desistiram desta arte”. Com o advento da década de1980, “fiquei sozinho a trabalhar, a arte deixou de ter futuro e mandei o meu filho empregar-se porque mal dava para eu comer”.


Felisberto Amador chegou a fazer o luto à arte. “Estava convencido de que isto ia acabar, mas então começou a febre dos passeios turisticos nos canais de Aveiro e isto reavivou, ressuscitou. Foi uma alteração muito grande porque antes disso não havia nada”, recorda.

O regresso à Ria

Começou por construir um mercantel para a empresa Cale do Oiro, um operador turístico aveirense, e, entre outras encomendas, agora está a fazer a manutenção de mais um. Diz–lhe a experiência que “todos os anos estes barcos deviam ter muita atenção, porque da linha de água para cima estão sempre fora de água, secam e estragam-se”. Quando faziam o que lhes estava destinado originalmente, “andavam sempre fresquinhos, carregados com moliço e sal, para cá e para lá. Agora não, levam calor e chuva por cima e duram pouco tempo”.

O último moliceiro que construiu e vendeu foi há três anos e, hoje, mantém um guardado em casa, de estimação, e por gosto.“Como já não há moliço, tenho um barco para que a tradição não morra por aqui, em Pardilhó”, esclarece. Mete-o na água no cais do Nacinho “para brincar e fazer umas regatas na Murtosa e em Aveiro”. “Este ano nem fui”. Antigamente,“ os barcos iam todos daqui, de Pardilhó. Até fragatas iam para o Rio Tejo”, recorda ouvir dizer.


O Centro de Interpretação da Construção Naval, que substituiu o velho barracão existente na Ribeira da Aldeia, além de espaço museuológico, prevê a realização de actividades de construção naval de embarcações tradicionais e formação profissional de carpintaria, entre outras actividades. Homenagear a arte da carpintaria naval é, também,uma forma de apreservar, incentivando os mais novos a aprender e a adquirirem estes conhecimentos junto dos construtores navais ainda em actividade.


Ainda hoje, além de Felisberto, nos seus estaleiros, os construtores navais António Esteves e Arménio Almeida talham artesanalmente muitas embarcações,usando o pau de pontos, onde estão gravadas as medidas das embarcações, a serra de mão, o enxó ou a gata, que serve para erguer peças na embarcação. Para aprender tem de ser com eles. Felisberto Amador não parece muito convencido: “A malta nova é dificil, mas pode ser que consigam atrair algum”.

Atrair a juventude


Hoje é tudo muito efémero e “um moliceiro demora muito a construir”, ajuiza, alertando que os construtores debatem-se, além de tudo, com dificuldades para encontrar boa madeira: “Está muito difícil de arranjar madeira de pinheiro manso”, num contraste preocupante com o que se passava até recentemente. “Antes havia toneladas de madeira de qualidade, em Albergaria-a-Velha, para escolher, mas os fogos destruíram, reduziram tudo a cinza e já não há como havia. Havia pinheiros limpinhos que eram uma maravilha para fazer as imprescindíveis costelas dos barcos moliceiros”. Agora, tem de ir a Alcácer-do-Sal. “É complicado”, sintetiza, com ar de quem nem gosta de falar no assunto.


Para se ser mestre de construção naval, hoje, tem de se “gostar muito”e estar disposto a ultrapassar muitos obstáculos, o que desmotiva mesmo os mais inveterados, como Felisberto Amador: “Enquanto puder vou trabalhando, mas já não consigo fazer um moliceiro num mês, como já fiz”, ri-se, para que não restem dúvidas. “Após um dia de trabalho, quando me deito, dói-me o corpo todo, mas de manhã está tudo bem. Enquanto assim for, vou continuando”, promete


O engenho e a destreza dos mestres

A construção de barcos em madeira no concelho de Estarreja remonta ao século XIX. Segundo a Estatística Industrial do Distrito de Aveiro, de 1867, Estarreja, que então abrangia a Murtosa, registou o lançamento à água de 85 barcos, entre os quais barcos grandes de pesca no mar. O engenho e destreza dos mestres e a abundância da mão-de–obra especializada justificou a fixação, em Pardilhó, em 1937, da delegação distrital dos Sindicatos dos Operários da Construção Naval. Na década de 40/50 havia, só em Pardilhó, mais de 30 carpinteiros navais no activo. Hoje, restam três devidamente homenageados com a atribuição, em 2019, da Medalha de Mérito Municipal, o galardão máximo atribuído pelo município de Estarreja

(nota: de todos os mestres ainda a trabalhar, o mestre felisberto amador (caçoilo) é o único de que não tenho entrevista gravada em vídeo. adiada de ano para ano. vamos ver se em 2021 é de vez.

para ver as entrevistas em video basta entrar no meu canal no YouTube)

os moliceiros têm vela (426)


ninguém mata o que foi

torreira; s. paio; 2010
guardo o tempo no fundo
dos olhos


decoro com palavras
as imagens


nascem rostos nomes
aconteceres


não invento passados
para ser hoje


caminho leve de ter sido
porque inteiro


sou o que o tempo conta
não o que contam


abraço o sol e a noite
os dias cheios


ninguém mata o que foi

os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)