o meu tempo

enraizadas na água
antiquíssimas
as vozes dos mortos
sem rosto
iluminam caminhos
gastos
de tanto os refazer
há um tempo sem
tempo
por dentro de todas
nele habito para ser

(torreira; regata do s. paio; 2011)

o meu tempo

enraizadas na água
antiquíssimas
as vozes dos mortos
sem rosto
iluminam caminhos
gastos
de tanto os refazer
há um tempo sem
tempo
por dentro de todas
nele habito para ser

(torreira; regata do s. paio; 2011)

tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(que as minhas para contigo
só à vista terão fim)
há muitos anos
talvez não tantos
que o tempo engana
era assim que
terminavam
as cartas de amor
há muitos anos
no tempo dos meus pais
havia cartas e moradas
postais e telegramas
agora
sms’s e-mail’s
e amor
tipo
tá-se bem

no moliceiro “Dos netos” com o meu amigo ti abílio
(torreira; regata do s. paio; 2016)
aturem-me

escrever no tempo
em que me inscrevo
é recusar ser folha
que o vento leva leve
é ser ainda a pedra
na vidraça dos dias
no charco dos conformados
dizer com voz firme
estou vivo porra
recuso-me a morrer
antes
de estar morto
aturem-me

(torreira; regata da ria; 2013)
Breve súmula do evento
A procissão dos barcos pela Ria no Dia de Corpo de Deus, começou a ser realizada em 2010 e partiu da iniciativa do Padre Abílio Araújo – pároco da Torreira. A finalidade é envolver a comunidade piscatória com a comunidade das Quintas, em cuja Capela da Sra da Paz é celebrada a Eucaristia, durante a qual comungam todas as crianças que fizeram a primeira comunhão nesse ano.
Ao princípio da manhã saem da Torreira dois moliceiros, um com as crianças que vão comungar e os seus acompanhantes e outro com o Padre Abílio, o diácono e os acólitos. Os pescadores vão nas bateiras e nas chatas.
No fim da eucaristia realiza-se a procissão entre as Quintas e a Torreira.
Normalmente, no regresso, à frente vai um grupo de acólitos numa bateira, com a cruz e as lanternas, num moliceiro o Padre Abílio com o diácono e o restante grupo de acólitos, as crianças vêm todas juntas noutro moliceiro.
Procurei nesta pequena reportagem, realizada em 2017, filmar a procissão na ria e mostrar como ela pode ser uma festa e uma celebração de fé da comunidade piscatória da Torreira.
(o meu agradecimento a Lucinda Barbosa, Presidente da Junta de Freguesia da Torreira, pelas informações que possibilitaram a construção deste descritivo)
ser da terra

ser da terra
não é por nela
berço ter tido
ser da terra
porque herdada
sabe a monarquia
em tempo de república
seja a gente da terra
a fazer-te um deles
ou negar-te
sê e faz
hoje sou vela e vento

(torreira; regata da ria; 2010)

o moliceiro

a água quebra
a rocha
o vento dobra
o ferro
o homem escreve
um sonho
palavras com vela
por sobre as águas
levadas pelo vento
o moliceiro

(murtosa; regata do bico; 2012)


Único no país e no mundo, objecto de estudos, livros, teses, publicações, o moliceiro ainda não está inscrito como Património Imaterial Nacional, na Direcção Geral do Património Cultural. Custa a acreditar, mas é verdade.
A foto que ilustra estas palavras é a da capa, das primeiras edições, do livro “Os Pescadores” de Raul Brandão e, por estranho que possa parecer, tratando o livro de pescadores e de artes de pesca, é o moliceiro que lhe serve de capa; o moliceiro que nada tem a ver com pesca e pescadores.
Segundo o Professor Doutor Vitor Pena Viçoso, estudioso da obra de Raul Brandão, tal acontece porque foi na ria de Aveiro, que atravessou de moliceiro, que Raul Brandão se sentiu plenamente feliz. Eis pois a maior distinção que alguém deu, até hoje, ao moliceiro: ser capa de um dos livros de referência para a história das pescas costeiras e interiores, do Portugal dos inícios do século XX, não sendo um barco de pesca.
No âmbito da candidatura da Cultura Avieira a Património da Humanidade, promovida pelo Instituto Politécnico de Santarém, que se iniciou em 2006, foi elaborada uma candidatura específica para as “ Artes e saberes de construção e uso da bateira avieira no rio Tejo, Caneiras “, a Património Imaterial Nacional, a qual foi aprovada – Anúncio n.º 121/2016 – Diário da República n.º 86/2016, Série II de 2016-05-04 – e que pode ser consultada em http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioConsultar.aspx?IdReg=475 e
A bateira avieira e os seus processos contrutivos estão assim protegidos pela classificação de Património Imaterial Nacional, que lhes foi atribuída. Mérito de quem para tal trabalhou. Acontece porém, e isso é consensual – vejam-se as fotos – que a bateira assim classificada, não é mais que uma bateira labrega murtoseira com pequenas adaptações.
Da labrega murtoseira resta um exemplar no cais da Bestida, Murtosa, à espera de … a avieira, sua descendente, é Património Imaterial Nacional!
O que é que isto tem a ver com a candidatura do moliceiro a Património Imaterial Nacional ? Tem tudo. Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – em que se inclui a “Pátria do Moliceiro”. Se em Santarém uma bateira com matriz na ria já foi considerada Património Nacional, o que espera a Região de Aveiro para candidatar o moliceiro?
Leia-se o Dec. Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, para fique clara a importância desta classificação e a quem compete a sua obtenção, na preservação do inventariado, de que ficam destaques, por mim seleccionados, só como exemplo:
“Artigo 3.º
Tarefa fundamental do Estado
1 — Através da salvaguarda e valorização do património cultural, deve o Estado assegurar a transmissão de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional singular.
2 — O Estado protege e valoriza o património cultural como instrumento primacial de realização da dignidade da pessoa humana, objecto de direitos fundamentais, meio ao serviço da democratização da cultura e esteio da independência e da identidade nacionais.
3 — O conhecimento, estudo, protecção, valorização e divulgação do património cultural constituem um dever do Estado, das Regiões Autónomas e das autarquias locais. “- sublinhado da minha responsabilidade
e
CAPÍTULO III
Protecção dos bens culturais inventariados
Artigo 61.º
Inventário geral
1 — Os bens inventariados gozam de protecção com vista a evitar o seu perecimento ou degradação, a apoiar a sua conservação e a divulgar a respectiva existência. “
(Versão integral em https://dre.pt/application/dir/pdf1s/2001/09/209A00/58085829.pdf )
O moliceiro já tem teses e livros que cheguem sobre ele, só lhe falta uma coisa: a classificação como Património Imaterial Nacional, no mínimo, porque o objectivo de qualquer amante e conhecedor da região é a sua inscrição como Património Imaterial da Humanidade. Será o moliceiro menos que os bonecos de Estremoz, ou serão os alentejanos mais dinâmicos e promotores da preservação da sua identidade regional?
Para os interessados em saber o que está classificado como Património Imaterial Nacional aqui fica o caminho
Para o que já está protegido e inscrito na UNESCO
Repito, “Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro– em que inclui a “Pátria do Moliceiro.”
O que falta?
http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/
do escrever

esqueci-me do que
me esqueci
escrever o esquecido
é o como destas palavras
pergunto-me se o quê
também

(torreira; regata da ria; 2013)

o homem da beira-ria

tão pouco uma palavra
e tanto nela se não dita
se negada depois de dada
aqui os homens
têm o tamanho da sua palavra
negá-la é negarem-se
o homem da beira-ria
é homem de palavra
ou ave de arribação

(torreira; regata da ria; 2010)
ao tempo

o moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço
quando for com o vento
ficarão palavras e imagens
sonhos ilusões muitas
ilusões muitas
eu quase todo sem ser já
sussurros de água
na boca de um barco morto
os gestos o ter feito
o que me fizeram
deixo ao tempo o juízo
ao tempo
que outro deus
não conheço

o moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço
(torreira; regata da ria; 2014)