os moliceiros têm vela (569)


oração

senhora aqui estou
a pedir por ele pela família
pela empresa a imobiliária que não é

vêdes senhora que televisões
trouxe para que se saiba
do meu sacrifício da minha fé
da nossa crença ancestral

faz tudo por nós pela família
perdoai-lhe se mente
o descaramento o biquinho
as pernas arqueadas de caubói

perdoai-lhe se deixa a palavra
em casa pendurada no cabide
não é por mal senhora é por nós
é pelos encargos pelas casas
pelos clientes pela boa vida

amanhã senhora aí onde me
esperais levo-vos uma oração
por ele que não seja treze
azar na roleta mas sorte na vida
no dia dezoito que domingo é

(moliceiro; murtosa; cais do bico; regata do emigrante; 2013)

postais da ria (555)


em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce

português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras

abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós

não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas

descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi

curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente

(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)

ria radical (4)


o poeta benzia-se
e não acreditava em deus

o poeta rezava
e não acreditava em deus

era segunda-feira
o poeta foi em peregrinação
à feira de espinho

deus estava no casino
ganhava milhões
na roleta de combustível

o poeta não se converteu
e deus não lhe vendeu
serviços de auditoria

deus não acreditava
no poeta

(ria de aveiro; bunheiro; 2013)

os moliceiros têm vela (567)


da poesia

a poesia casa

o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado

a poesia janela

o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre

a poesia porta

o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra

a poesia epígrafe
ou será epitáfio

esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta

(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)