não sou do tempo da corda
ao pescoço
do empenhar das barbas
mas há um tempo sem tempo
onde a palavra dita
é a palavra escrita
é esse o tempo do HOMEM
o mais é embuste
de rastejantes seres
(skimming; praia de buarcos; 2011)
oração
senhora aqui estou
a pedir por ele pela família
pela empresa a imobiliária que não é
vêdes senhora que televisões
trouxe para que se saiba
do meu sacrifício da minha fé
da nossa crença ancestral
faz tudo por nós pela família
perdoai-lhe se mente
o descaramento o biquinho
as pernas arqueadas de caubói
perdoai-lhe se deixa a palavra
em casa pendurada no cabide
não é por mal senhora é por nós
é pelos encargos pelas casas
pelos clientes pela boa vida
amanhã senhora aí onde me
esperais levo-vos uma oração
por ele que não seja treze
azar na roleta mas sorte na vida
no dia dezoito que domingo é
(moliceiro; murtosa; cais do bico; regata do emigrante; 2013)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)
o poeta benzia-se
e não acreditava em deus
o poeta rezava
e não acreditava em deus
era segunda-feira
o poeta foi em peregrinação
à feira de espinho
deus estava no casino
ganhava milhões
na roleta de combustível
o poeta não se converteu
e deus não lhe vendeu
serviços de auditoria
deus não acreditava
no poeta
(ria de aveiro; bunheiro; 2013)
da poesia
a poesia casa
o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado
a poesia janela
o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre
a poesia porta
o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra
a poesia epígrafe
ou será epitáfio
esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta
(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)