então trocas os nomes
confundes os rostos
reconheces a voz
mas é tarde
não tardou o tempo
a crescer onde diminuis
então trocas os nomes
os que não esqueceste
que a memória também
os amigos sorriem e respondem
por um nome que não é o deles
os amigos são para além do nome
o gesto o abraço o sorriso
então sorris também porque
não há trocas na amizade
guardo o tempo no fundo
dos olhos
decoro com palavras
as imagens
nascem rostos nomes
aconteceres
não invento passados
para ser hoje
caminho leve de ter sido
porque inteiro
sou o que o tempo conta
não o que contam
abraço o sol e a noite
os dias cheios
ninguém mata o que foi
regresso ao sábio labor
das pequenas malhas
à paciência do pescador
encontro o homem
escuto-o e aprendo
vão colhendo as malhas
gélidos os dedos do meu amigo
dentro do barco agulha na mão
um homem bom espera melhores dias
um homem bom que repara redes
porque não pode reparar os dias
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada
homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações
foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre
às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)