se
se partir fico se ficar parto no intervalo sou
escrevo
escrevo o tempo com imagens guardadas nos baús digitais da memória comprada a informação diz-me o quando eu sei onde ainda sei quando tudo foi ontem e ontem foi há tanto tempo sei deste caminho feito de achares e perderes sei que valeu a pena homens que conheci para desconhecer o tempo tudo limpa e lava mesmo o que mais fundo à superfície vem escrevo o tempo com imagens como todos os que arriscam palavras escrevo-me também e isso não é novo para ninguém
2 de setembro de 2016

como já escrevi na primeira publicação desta série, a minha era digital na xávega começou em 2005 e, na torreira, por motivos vários, terminou no dia 2 de setembro de 2016 – doze anos a registar fotográficamente, e não só, a xávega na torreira
a foto que publico hoje é a “última foto que fiz no mar da torreira”.
como não acredito em coincidências, entendo que o facto de nela aparecer o meu grande amigo agostinho trabalhito “canhoto” não é acaso, tinha de ser.
lembro uma história breve da nossa amizade e que diz tudo.
“um dia, disse-lhe que quando morresse as minhas cinzas iriam ser deitadas ao mar. ao ouvir isto o agostinho, com a maneira de falar que o caracteriza, exclamou:
ah! cravo. eu nesse dia não bou ao mar!“
raízes

vêm de longe trazem nos olhos a limpidez da ria antiga homens inteiros fogem das ribaltas que outros buscam a qualquer preço escondem-se para serem o que sempre foram são eles serão sempre eles as minhas raízes
s//t

de tudo o que vivi só posso dizer uma coisa vivi-o intensamente é de mim que falo quando semeio palavras por aí
morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)
era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria
tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também
à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo
não ti zé
não estou na murtosa
nem você agora
era nas regatas de moliceiros
ou bateiras
ou no são paio
que nos encontrávamos
havia sempre um abraço
um sorriso uma salvação
uma salvação ti zé
agora que ninguém o salva
lembro-me do tempo
em que na murtosa
as pessoas se salvavam
vão partindo os amigos
a família desse tempo
e eu vou partindo aos poucos
bocados de mim que se foram
pedaços de outros
que comigo ficam e são raízes
ti zé
você é uma raiz
que fica comigo
abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)


jorge pereira

torreira; 2008

torreira; agostinho canhoto; 2013
