postais da ria (152)


boas manel

0 ahcravo_DSC_5489_bateira bico bw

éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

0 ahcravo_DSC_5489_bateira bico

(ria de aveiro; cais do bico)

os moliceiros têm vela (200)


aos senhores da terra

00 ahcravo_DSC_2037 bw

toda a beleza dos moliceiros

queria acreditar em vós
em tudo o dizeis

ouço-vos atento

mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

00 ahcravo_DSC_2037

o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa

(torreira; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (199)


quem dera tu

0 ahcravo_DSC_1526 bw

os dias têm o tamanho
de sempre

mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas

acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã

o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos

divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso

não te escrevo
escrevo-me

os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também

quem dera tu

0 ahcravo_DSC_1526

(murtosa; regata do bico, 2012)

postais da ria (149)


ser quase nada

0 ahcravo_DSC_6501_henrique brandão_pai e filho bw

a ria por destino

ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais

escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão

tantos

julgam ser
quase tudo

0 ahcravo_DSC_6501_henrique brandão_pai e filho

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (148)


cabrita alta

00 ahcravo_DSC_8790_joão manuel dias bw

joão manuel dias

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?

os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas

tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados

o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos

quero que os sintas
ao leres

00 ahcravo_DSC_8790_joão manuel dias c

no fundo da ria e cabrita arrasta

(torreira; cabrita alta; 2012)

os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

0 ahcravo_DSC_5867 bw

o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

0 ahcravo_DSC_5867

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata