os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

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é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (217)


QUEM LUCRA COM A REGATA DA RIA?

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a regata da ria, a mais importante das 3 regatas de moliceiros que se realizam todos os anos, envolve 3 “actores”:

1 – o promotor da regata (que a financia)

2 – o organizador da regata (que paga os seguros, um almoço e um jantar aos moliceiros, as taças e distribui os prémios pecuniários)

3 -os moliceiros (pagam as despesas de manutenção dos barcos- pintura de painéis e reparações para a regata, custos que não são cobertos na totalidade pelos valores que recebem do organizador)

ou seja, o promotor dá dinheiro ao organizador, que paga aos moliceiros.

o interessante no meio deste processo é que quem organiza, gasta pouco e ganha muito –  DA REGATA DE 2015 AINDA CONTINUA A HAVER DINHEIRO POR PAGAR AOS MOLICEIROS – e os  moliceiros, gastam muito e ganham pouco.

será que ninguém vê isto? será justo? o que podem os moliceiros fazer para que as coisas passem a ser ao contrário: quem gasta pouco, que ganhe pouco (a organização), quem gasta muito que ganhe muito (os moliceiros).

será que os promotores não sabem o que se passa? quem é que anda a lucrar com a regata da ria?

os moliceiros é que não.

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS E REVEJAM A DISTRIBUIÇÃO DAS VERBAS

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (143)


joão manuel brandão (1)

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das muitas artes de pesca que ainda se praticam na ria e que pude acompanhar de perto, a arte da “cabrita alta”, para apanhar bivalves é, sem dúvida, a mais dura.

com o joão manuel brandão e o joão manuel dias, em 2012, pude ver de perto o sofrimento que provoca no mariscador.

as fotos que vou publicar são do joão manuel brandão e mostram bem o esforço que se lhe espelha no rosto.

coluna, joelhos, braços, pernas, todo o corpo é uma máquina que se desgasta nesta arte duríssima e que, mais dia menos dia, os leva ao bloco operatório ou à fisioterapia.

parca paga, enorme o desgaste, maior a despesa.

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(ria de aveiro; torreira; cabrita alta; 2012)

crónicas da xávega (99)


nota dos dias que correm

o agostinho desata o arinque do calão

o agostinho desata o arinque do calão

ontem morreram quatro pescadores num arrastão à entrada da barra da figueira. problemas de concepção da barra.

ontem um locutor de televisão tentou assassinar o bom nome de um cidadão. problemas de concepção do mundo.

hoje não sei que país é este onde tudo isto pode acontecer e ficar impune.

a realidade tem muitas cores e todas são belas

a realidade tem muitas cores e todas são belas

(torreira; companha do marco; 2014)

“sou tudo o que aqui encontras”, notícias do lançamento


todos têm um nome, um rosto, um abraço. são amigos

todos têm um nome, um rosto, um abraço, chamam-se: amigos

o monte branco caffé estava cheio de amigos vindos de lisboa, de coimbra, do porto, de aveiro, da terra. amigos que do virtual entraram porta adentro do real e amigos são de facto. amigos de muitos anos e de muito sentir. estiveram ali os que puderam, os que quiseram e os que não podendo fizeram sentir que estavam.

foi uma noite cheia, que abriu com uma apresentação feita pelo meu amigo diamantino matos, que relembrou tempos idos da juventude comum na torreira e na murtosa, interligou, como só ele sabe, as palavras e as imagens do livro,  com todas as formas de expressão artística que tão bem conhece e domina. obrigado diamantino

obrigado a todos, que foram muitos, não só porque encheram a sala, mas porque me encheram a mim, e eu não sei de sala maior que aquela onde amigos como vocês chegam para partilhar comigo o prazer da leitura e da fotografia, de estarmos vivos juntos.

obrigado ao monte branco caffé, por tudo, por tudo.

abraço-vos a todos e somos muitos

(torreira; no dia a seguir)

a primeira edição está quase esgotada. foi uma aposta ganha.

no país das maravilhas (cont)


o porto de abrigo visto de norte, ou esperemos que óguente o inverno sem assorear

o porto de abrigo visto de norte. vamos ver se óguenta o inverno sem assorear

no passado dia 29 de junho, publiquei no meu blog uma análise muito simples, sobre o meu entendimento do que se passa com o novo porto de abrigo da torreira, procurando demonstrar que o que “nasce torto, tarde ou nunca se endireita”

pode ler-se na íntegra em

https://ahcravo.wordpress.com/2015/06/29/no-pais-das-maravilhas/

ora bem, haverá talvez mais de uma semana que os trabalhos estão parados, como se pode ver na fotografia, e os habituais frequentadores do passeio da ria perguntavam, para quando a inauguração? entre os pescadores ninguém sabia.

assisti ao carregar do rebocador para cima do batelão e hoje, dia 30 de julho, pareceu-me que já lá não estava.

entretanto, um pescador disse-me que tinha recebido uma mensagem da associação, a dizer que a partir de 1 de setembro não podiam deixar os barcos varados entre o “guedes” e porto de abrigo.

outro, disse-me que tinha recebido mensagem a dizer que as obras se prolongavam até 30 de setembro. baralhado resolvi pedir para ler a mensagem e lá consegui. era a segunda versão a verdadeira, a mensagem diz isto:

“ Cap. Aveiro – Edital nº148 informa que obras na zona envolvente, varadouro e porto de abrigo da Torreira vão decorrer até 30/09.

Aconselhamos a leitura do edital”

entretanto, começaram a correr as habituais informações, de fontes que nem me interessa saber: que iam dragar mais a norte; que as obras iam até ao cais do “guedes” ……

o costume, quando não há informação, há desinformação.

melhor fora ler o edital, e foi o que fiz, e pode ser consultado no link:

Click to access edital%20148.pdf

e está transposto como imagem abaixo.

edital 148

o que nele se lê é muito claro: “prorrogação dos trabalhos em curso”, e isto quer dizer uma só coisa: os trabalhos contratados não puderam ser concluídos a tempo e como tal a empresa a quem a obra foi entregue pediu um adiamento para entrega da obra, até 30 de setembro.

em resumo, não se vai fazer mais nada, nem vou perder tempo a discutir se se podia fazer.

aos pescadores da torreira que andaram, certamente de boa fé, a dizer que ia haver mais dragagem, ou obras, quero dizer-lhes, que nada disso está no edital. é muito claro.

se o município, ou o polis, vai fazer alguma coisa, não se vê em lado nenhum isso escrito.

fico à espera que digam o contrário do que aqui escrevo e que, com documentos, me provem que vão fazer algo mais do que acabar o que está em curso.

interessante, isso sim, seria saber o porquê do atraso. eu como tenho mau feitio, e sou conhecido por isso, até sou capaz de pensar que é para ser inaugurada com pouca gente na torreira, o que é estranho, dada a importância da obra.

ou será que  têm medo de que haja protestos em vez de celebrações?

continuamos no país das maravilhas e no seu melhor.

no país das maravilhas


a estória é aqui e estava maré vazia

a estória é aqui e estava maré vazia

era uma vez um concelho, com uma comunidade piscatória distribuída por vária freguesias.

com o apoio de fundos comunitários, fizeram-se obras de remodelação e modernização dos vários portos de abrigo.

não se sabe porque carga de água, o porto com maior número de pescadores foi o último a ser remodelado/renovado. talvez até tivesse sido bom, porque as asneiras cometidas nas remodelações anteriores poderiam servir de emenda. poderiam, digo eu. é deste a estória que vos queria contar.

de há alguns dias para cá, comecei a ouvir conversas de pescadores em que só ouvia dizer mal da obra – pobres e mal agradecidos, dirá quem aqui chegar pela primeira vez -, que não dava para o número de barcos existentes, que não tinha espaço para os barcos manobrarem, que as atracações não eram de dimensão suficiente, que não passaria um ano sem que voltasse a ficar tudo assoreado, …… enfim, só miséria, para tantos milhões gastos.

tanto ouvi que comecei a fazer perguntas, mas só de uma me interessava saber a resposta:

pergunta: alguém pediu a vossa opinião quando foi feito o projecto?

resposta: não

para quem, como eu, geriu fundos comunitários, sabe que o projecto é a fase mais importante de qualquer investimento que queira deles beneficiar, como foi o caso. projecto mal feito é uma coisa inadmissível pelos gestores dos fundos, até porque é financiado por eles.

do projecto nasce um caderno de encargos, que se põe a concurso, é adjudicado e contratado. tudo o que fuja ao caderno de encargos perde o financiamento. um projecto mal feito ou é suspenso a tempo, ou depois de contratada a obra, só resta cumpri-lo.

regra de ouro: qualquer alteração ao caderno de encargos tem de ser assumida pelo “dono de obra”.

se quer mudar o que pôs a concurso, paga e pronto. os fundos não financiam asneiras, daí a importância do projecto feito à medida da sua localização e das necessidades dos utilizadores finais.

percebem agora o porquê da minha pergunta e como fiquei admirado com a resposta.

só tenho uma dúvida, trata-se de ignorância ou incompetência, ou das duas?

seja qual for a resposta, a verdade é que talvez se tenham “estragado” uns, poucos, milhões de euros.

gostava que esta estória tivesse um final feliz. gostava sinceramente e espero que tenha, mas é um final que, para já, me parece que pode sair caro. gostava de estar enganado.

a sério que gostava que isto fosse só uma estória, que não tivesse nada a ver com a realidade, ou que eu me tivesse enganado redondamente.

até lá, vou fazendo umas fotos

ao vivo e a cores talvez seja melhor

ao vivo e a cores talvez seja melhor

(algures no país das maravilhas)

os moliceiros têm vela (123)


o meu amigo ti zé rebeço e uma nota à parte

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bravo!

antes do início da regata da ria, o ti zé rebeço, fez uma pequena demonstração com o seu moliceiro.

aos 75 anos, a fazer 76, quem estava na marina de recreio, pôde admirar a energia e a arte do mais antigo moliceiro da ria.

na tripulação o mais jovem velejador de moliceiros, o zé pedro.

é extraordinário assistir ainda a provas desta natureza dadas por um homem que nasceu na ria e faz dela a sua bandeira.

parabéns ti zé, saibam vê-lo e entender a mensagem que transmite aos mais novos e aos que gostam de moliceiros: resistir até morrer.

(nota: entrei na página do município da murtosa e, no canto inferior do lado direito, está anunciado um edital intitulado “Elaboração de um Projecto de Regulamento de Utilização do Porto de Abrigo para Pescadores na Torreira” – http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7861&divName=900&id_class=900.

nestes casos é de norma e regra, publicitar a proposta da autarquia, ou da entidade responsável, e pedir aos munícipes, ou a todos aqueles cujo regulamento abrange, sugestões de alteração à proposta.

não é isso que acontece no edital. não é apresentada qualquer proposta e são pedidas sugestões, no prazo de 10 dias úteis. como o edital é de 18 de junho, as sugestões devem ser enviadas na semana que vem.

então a autarquias pede sugestões e não sugere nada? não existe, ao menos, um esboço de regulamento sobre o qual os munícipes se possam pronunciar?

nunca vi, nem sei se voltarei a ver noutros locais esta forma estranha de fazer a consulta aos munícipes. serão modernices, desconhecimento, ou traz água no bico?

não sou pescador, mas se o fosse, soubesse consultar a internet e tivesse alguma experiência sobre como funcionam este tipo de editais, fazia uma única sugestão:

QUERO SABER QUAL É A PROPOSTA DA CÂMARA MUNICIPAL.)

longe de tudo isto, o meu amigo ti zé rebeço, veleja na ria e no coração de todos os murtoseiros.

ele é a murtosa

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(torreira; regata da ria; 2015)

cada cavadela, cada minhoca


sérgio e ricardo silva

sérgio e ricardo silva

depois de ter feito, com grande prazer e alegria, este registo dos filhos do arrais marco silva a ajudarem o pai, pasmo perante as declarações do presidente da câmara da murtosa, à sic:

– …. este é um acto emocional, não é um acto racional, a um jovem tudo recomendaria que ele não gastasse provavelmente quase 15.000 euros na construção desta embarcação …..

querem mensagem mais encorajadora para o futuro do moliceiro? que o pensasse, estava no seu direito, mas que o viesse dizer para a televisão num momento de festa ……  eis o que pensa o presidente da pátria do moliceiro.

por favor, digam que ouvi mal, ou que quem está errado sou eu

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torreira, 20 de junho de 2015