falo do tempo

a nortada leva o tempo
vive
hoje
amanhã
é ontem
vive

se há beleza é porque a vês quando olhas
(torreira; regata da ria; 2016)
falo do tempo

a nortada leva o tempo
vive
hoje
amanhã
é ontem
vive

se há beleza é porque a vês quando olhas
(torreira; regata da ria; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
estive aqui de férias

no verão de 2013, o cipriano carrega o saco na zorra
olhar sem sentir
olhar apenas sem pensar
estou aqui de férias
ilusão tudo o mais
para além de mim
quem cá está
cá ficará
eu partirei
sem saber se
o meu amanhã
é em toda a parte
o meu ontem
passou por aqui
o que fui é o ser
assim onde estiver
há mais mar que homens
há mais sonho que rebanhos
não preciso de pastor
basta-me o barco
que trago dentro de mim
vou comigo
para que sejam
e continuem
estive aqui de férias

cipriano brandão, em 2013 (o vício do mar)
(torreira; companha do marco; 2013)
obrigado ti abílio, obrigado reinaldo

o moliceiro “Dos Netos” do ti abílio carteirista
com este apontamento, encerro o ciclo dedicado a algumas meditações sobre as regatas da ria em geral e da de 2016, com maior detalhe.
haja futuro para os moliceiros.
não podia deixar de abraçar aqui um moliceiro em particular: o meu amigo ti abílio carteirista, decano da regata – fará 80 anos este ano e está aí para as curvas.
depois de receber, como todos os moliceiros que participaram na regata, a medalha a que tinha direito, o ti abílio veio direito a mim – eu não tinha almoçado com eles – e ofereceu-me a medalha que era dele. de imediato o reinaldo belo, que conheci nesta regata, me ofereceu a dele também.
tudo decorreu sem espaventos, com simples troca de abraços entre amigos.
mas quero dizer-lhe, ti abílio, e a si também, reinaldo belo, que não tenho palavras para o vosso gesto.
por mais distinções que tenha tido ao longo da vida, nenhuma é maior e mais valiosa que estas ENORMES medalhas que guardarei comigo.
bem hajam os dois
em agosto, no bico, lá estaremos

na regata são permitidos 3 tripulantes por barco, ao ti abílio, a fazer 80 anos, basto ele e mais um
(ria de aveiro; regata da ria; 2016)
como ficar calado?

a vida de pescador é dura, muito dura
no dia em que o furão vaidoso engorda a sua luxuosa reforma, com a entrada para presidente não executivo de um grande grupo bancário, nesse mesmo dia, hoje, um pescador da torreira de baixa por doença grave, diz-me na praia:
– estou de baixa cravo e recebo e … euros por mês (tenho vergonha de escrever o valor)
é esta sociedade a que eu me recuso a pertencer e a não denunciar.
só respeito os homens que se ajoelham perante deus, porque acreditam e eu não.
os mais, queria-os de pé, como se tivessem pernas dentro da cabeça.
isso sonho

o horácio, a manga da rede e o alador
(torreira; 2012)
também não sei

quando tiver vela será livre
(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)
que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas
conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser
que coisa é o homem?
boa pergunta carlos
também não sei

encalhada e bela, nada mais digo dela

o “cristina e sara” do ti virgílio na regata da ria 2010
pintura geral

ao mestre construtor, que fez a reparação de manutenção do moliceiro, poderá também competir, dependendo do contratado, a pintura geral da embarcação.
neste registo o mestre zé rito, com o moliceiro virado, dá início à pintura exterior.
com esta foto termina a descrição sumária do “antes da regata”, amanhã é dia dela.
um dia que ficará tristemente para a história, com a associação do kite surf à regata da ria.
para além de lamentável em si mesmo, porque se intromete num evento de cariz tradicional, é mais grave ainda porque apadrinhado pela entidade organizadora da regata – o rancho folclórico camponeses da beira ria -, pelo município da murtosa – quer institucionalmente, quer através do presidente do rancho folclórico que é vereador da câmara – e, espante-se, porque aos moliceiros participantes da regata nada foi dito a este respeito.
mas nesta terra, como dizia um amigo meu, já nem me espanta ver um porco a andar de bicicleta.

(torreira; 30 de junho, 2016)
reparação e manutenção dos moliceiros

o mestre zé rito
depois de quase um ano a céu aberto, em seco e na água, a estrutura dos moliceiros sofre sempre deterioração.
por isso, para poderem participar na regata, é necessário proceder à revisão do estado geral da estrutura e proceder às operações de reparação necessárias.
na publicação anterior falei das pinturas, nesta é a vez de falar da arte de carpintaria naval.
a maior parte dos moliceiros que correm nas regatas e não pertencem a nenhum mestre construtor, vem à revisão e reparação, no estaleiro do mestre zé rito, na torreira.
neste registo vê-se o mestre a reparar o bordo de um moliceiro, mas a actividade nas semanas que precedem a regata da ria, a primeira de cada ano, é grande.
aproveito para relembrar, que se o dono de um moliceiro resolver pintar de novo o barco, muitas vezes precisa, e fazer as reparações necessárias para fazer as regatas em segurança, não lhe bastam os prémios de presença e competição -se ganhar algum – para cobrir todas as despesas.
não digo mais nada, porque o resto já imaginam, depois de tudo o que tenho vindo escrever a este respeito.

(torreira; 29 de junho de 2016)
as pinturas dos painéis e as decorações dos moliceiros

a beleza do moliceiro não reside somente na elegância da suas linhas, as pinturas dos painéis da proa e da ré, fazem de uma regata de moliceiros a única “galeria de pintura flutuante e em movimento” em todo o mundo.
há 25 anos que o pintor josé manuel oliveira e, nos últimos anos, o pai , necas lamarão, se dedicam à pintura de painéis e decorações dos moliceiros.
da invenção da pintura às legendas, são eles, raramente com a ajuda dos donos dos moliceiros, que fazem este reencontro com a tradição.
nem sempre é fácil conseguir juntar pai e filho no mesmo registo, não é fácil mas, desta vez , consegui.

(torreira; 27 de junho de 2016)