crónicas da xávega (616)


a criança amputada
irmã da que mataram
é minha neta

a mulher que chora
a família perdida
é minha irmã

o homem que grita
o nome do filho soterrado
é meu irmão

o sangue que escorre
daquele corpo desfeito
é o meu sangue

como podem querer
que me cale

(xávega; pancada de mar ; torreira; 2013)

postais da ria (565)


NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias

NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias

NÃO
posso calar tudo o que dentro
de mim ferve e se impõe
contra o silêncio a prepotência

NÃO
o ter armas poder dinheiro NÃO
tem força de lei mas sim
marginais loucos engravatados

NÃO
aceito a conversão de dólares
em crianças assassinadas
o lucro cego pago com sangue

NÃO
chamem-me perigoso terrorista
escrevam o meu nome
a vermelho mas ESCREVAM que

NÃO me verguei nunca

NÃO
ao GENOCÍDIO em GAZA
ao governo de netanyahu
NÃO à GUERRA SIM à PAZ

PALESTINA LIVRE

(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2017)

crónicas da xávega (614)


escolho escolher

escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando

eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas

não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha

é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate

(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)

crónicas da xávega (613)


cavar fundo
revolver a terra

cavar mais fundo
abrir pedras

na raiz da palavra
o coração do poeta

saboreio o fruto
digo o poema

(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)

nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)

a fala dos retratos (171)


” … quando puder venha nos visitar, alguns de nós sentimos a sua falta … já fazia parte da nossa história … da torreira, era e é um de nós.”

(joão manuel brandão)

(torreira; 2012)

(nota: foto publicada com autorização do retratado. o registo foi feito a bordo da bateira, no final de uma sessão de mariscar com o uso de cabrita alta)