
cipriano brandão (gamelas)
cipriano
não sei onde estás
sei onde te deixaram
cipriano
não nos vamos
encontrar mais
mas cipriano
fazes parte
da minha torreira
farás sempre

o cipriano, no mar, em 2010
(cipriano brandão_gamelas, torreira; 2010)

cipriano brandão (gamelas)
cipriano
não sei onde estás
sei onde te deixaram
cipriano
não nos vamos
encontrar mais
mas cipriano
fazes parte
da minha torreira
farás sempre

o cipriano, no mar, em 2010
(cipriano brandão_gamelas, torreira; 2010)
escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)
as imagens têm nomes

houve os que partiram
há os que ainda
haverá outros amanhã
guardo muitos comigo
mais que os barcos
mais que as artes
os homens
as mulheres
a canalha
as imagens têm nomes
são gente
sinto-a poisada nos dias
(torreira, 2017)
sorriem muito

mãos de mar, mãos de luta
não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca
gostam muito do talvez
evitam nãos e sins
são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor
à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos
de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes
sorriem muito
(torreira; 2015)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
sonharei sempre

sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras
recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar
também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra
que dizer da lua
e das suas duas faces
sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei
deixo as certezas
para os treinadores
de bancada
levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber
sonharei sempre

o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão
(torreira; regata do s. paio; 2015)
durmo mal

safam-se as redes, limpa-se o lixo
sei demais
mesmo sabendo pouco
vivi muito
durmo mal
não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me
as ilusões são breves
por isso são
o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste
espero-te sentado
enquanto leio
não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal
não me embalas
com cantigas
(torreira; 2017)
há mão humana

o meu país arde
a galiza arde
há mão humana
do início ao fim
há mão humana
nas alterações climáticas
há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu
há mão humana
no crime
há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto
no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana
há mão humana
há mão humana
há mão humana
não conheço outra
(torreira; 2014)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira