o meu amigo ricardo

como o barco do mar
o homem da criança
não é ricardo?
tudo muito rápido
onde ontem?

(torreira; 2016)
o maria de fátima a arribar e fácil é só para quem olha sem ver
o meu amigo ricardo

como o barco do mar
o homem da criança
não é ricardo?
tudo muito rápido
onde ontem?

(torreira; 2016)
o maria de fátima a arribar e fácil é só para quem olha sem ver
utensílios primordiais

utensílios primordiais
a navalha e o bordão
no repartir do trabalho
e do seu fruto
as mãos são
as mãos de tantos quantos
para além delas
habitam o tempo
gravado no bordão
escrita sábia esta
sem palavras
escultura elementar
em louvor dos dias
parto e já não sou tão pouco
sou mais um
vejo para além do que vejo
cresci
ganhei o mar que pressinto
para ser barco homem memória
(torreira)

o meu amigo agostinho trabalhito
(torreira; 2016)
oração (2)

aos homens que vencem o mar
vencendo-se a si próprios
eu que sou um deles sem o ser
só lhes peço
que sejam em terra os mesmos
de pé altivos destemidos
de joelhos só perante
o senhor dos céus
em oração

(torreira; companha do marco; 2016)
das mãos

há dias assim, pena não serem todos
com as mãos digo o teu nome
caminho pelas palavras
por onde houver que
dou e tiro
sou as minhas mãos
lê-as para me saber
palavras amarradas

quase ternura
está cheio o baú
de palavras por dizer
o silêncio são palavras
amarradas
(torreira; 2014)
às gentes da xávega

haja peixe certo no tempo certo
que 2017 traga às redes
o peixe o carapau a sardinha
que negou em 2016
no tempo certo
que nem todo o tempo o é
isso aprendi
por isso o desejo
a todos os que da xávega
fazeis vida
que os que ainda não vos respeitam
aprendam em 2017
que quando deixardes de ser
a sua terra perderá
muito mais de si
do que uma simples arte de pesca
perderá o futuro
porque deixou morrer
o passado
(torreira; 2015)

pudessem as mãos
chorar
seriam delas as lágrimas
também
notas de um retirante

o jorge carriço a relembrar velhos tempos
o último ano em que, na torreira, se fez alagem com bois, foi em 2001. (confirme-se com o joão da calada)
a companha era a do joão da calada e o barco, o óscar miguel.
entre os bois e os tractores, penso que houve um período curto em que se fez alagem a tirante. tire-se isto a limpo.
em 2013, ano de eleições autárquicas, pela primeira vez a câmara da murtosa fez uma recriação da xávega.
para o ano há de novo eleições, porque não, pelo menos de 4 em 4 anos, fazer uma recriação?
(torreira; setembro, 2013)
desabafo

mãos de fazer, mãos de dar, mãos de ser
melhor não escrever nada
estou engasgado de sentir
as palavras come-as
o tanto
tenho para mim
que o que fiz
sempre que o fiz
foi por bem
mesmo se errei
ao fazê-lo
por isso
me dói
calo calco
não mereço
não mereço
não mereço
escrevi