do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)
do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)
o presente

guardaram-lhe para o fim
o presente mais apreciado
esqueceram-se de lhe dizer
que era envenenado

(torreira; 2013)

eis as mãos
eis a faina o labor
de haver mar

(torreira; 2016)
recuso ser de férias

o carregar da rede na zorra
é tempo de olhar
de sentir tudo
o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso
fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado
recuso ser de férias
sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos
fica a memória a pairar na praia
longe

veio do mar, irá agora ser entendido e secar
(torreira; companha do marco; 2016)
meditação breve

carrega-se o saco para dar a volta ao barco pela ré
como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias
tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes
caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens
teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer
acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

não há máquinas para estas tarefas: há homens
(torreira; 2010)
de mim

a manga corre por entre os bordões cruzados
tudo o que te disserem
a meu respeito
é verdade
mesmo as mentiras

o saco aproxima-se, a rede corre sem tocar na areia
(torreira; companha do marco; 2013)
do cigano

o luciano e o trovão
olho tudo como se
me despedisse
cheio de memória
sei que parto
dobrado ao peso
de ter tentado
vivi demasiado
o que não devia
quem te mandou cigano
pensar ter casa

o peso do saco
(torreira; companha do marco; 2010)
urgente

a picada do peixe aranha
provoca uma dor horrível
há porém quem os coza
e saboreie como petisco
é tudo uma questão
de treino e sabedoria
a culinária é uma arte
que tenho de aprender
rapidamente

(torreira; companha do marco; 2011)
para o meu amigo ricardo

aparelhar
só foi há 4 anos
ou
já foi há 4 anos?
esta coisa do tempo
e do senti-lo
tavas gordinho puto

a memória
(torreira; companha do marco; 2012)
as palavras e as imagens

o “M. FÁTIMA” novo e a primeira grande pancada de mar
é normal procurar imagens para as minhas palavras, mas a foto de hoje deixou-me sem elas.
há dias assim, de olhar só

há anos que não fazia uma foto destas. grande barco!
(torreira; 14 de junho de 2016)