crónicas da xávega (366)


dar o porfio

xávega; dar o porfio; torreira; 2011
olho as palavras
que foram minhas
com o espanto
de o terem sido
 
quem fui
para as ter escrito
 
quem sou
quando as escrevo

quem serei
quando as lerem
  
indiferente o agostinho
dá o porfio ao saco

essencial para o pescador
é um bom laço de carapau
 
 

postais da ria (376)


amizade

(para o mirco bompignano)

torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2010
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 caminhei por sobre a ria
 ao encontro do mar  
 e o inverso que caminho
 também o era
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 o sentir vai e vem por onde
 caminhar pode
 sem saber de outro destino
 que o encontro  
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 apenas uma palavra percorre
 estes dias e é amizade
 
 

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos