mais que o nome a alcunha
conta uma história
assim os pescadores
a do henrique nunca a soube
nem é aqui lugar para
homem rico o henrique
de duas alcunhas penso
ser dono
haverás mais ricos
de alcunhas claro
mas de voz
mais nenhum
safa as redes como todos
não safa a vida
” um dia em cheio. 7h45m- torreira; 8h30m – partida para a ria com dois pescadores para, durante cerca de 1h30m, fotografar e filmar o colher das redes; 10h30m banho no mar; 14h30m – o marco resolve ir ao mar, até às 17h fotografar e filmar um lance de xávega. assim um dia”
um dia intenso, como eram todos os dias
porque de tudo haverá partida
e se fará memória se a houver
malhas cheias as da minha rede
forçoso voltar a terra e descarregar
tempo de contas e de ter sido
farto e intenso nunca pela metade
porque de tudo há partida
resta a memória
o assassínio do futuro
condena-me a conjugar
os verbos no passado
se os nomeio
folhas secas juncam o chão dos dias
inscrevem nomes na memória
povoam o silêncio
estar vivo é saber
da morte dos outros
ser a sua eternidade breve
outra não há
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
na leira das palavras
esgotou-se a terra
cansada seca
entre ser e dizer
um deserto mal
povoado
fraca a seara onde suor
tanto
aos pardais
as sementes satisfazem
pouco é muito
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
caminho descalço
pelos dias de estar aqui
olhos abertos como mãos
em tempo de fruta madura
caminho descalço
dorido de tantos cacos
pedras vidros pregos
recuso o conforto da cegueira
auto imposta felicidade
falsa de luas inventadas
doem-me os olhos de ser
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
o ti zé formigo ainda está aqui comigo – (regata do emigrante; cais do bico; 2018)
tenho o passado
num disco externo
chego devagar
lento é o tempo de
revejo amigos
idos para sempre
fui por inteiro
não me resguardei
se traidores houve
só um é culpado
eu por ter acreditado