alberto estrela (aos amigos que partiram)


(alberto estrela; torreira; 2006)

boa noite estrela

soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela

a frase continua a martelar-me
a cabeça

que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas

sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos

vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal

e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos

um abraço do teu amigo

cravo

óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

o macho lusitano


o macho

imagem retirada de http:/bloguite.com

(o macho lusitano)

o macho lusitano, sangue na guelra,

latino. conhece do engate a técnica.

malandro no chapéu, no bigode fino,

no olhar castigador. sem jeito investe.

a fêmea rodeia, cerca, encurrala. o

cigarro portuguesmente crava: o pretexto

para o diálogo, para os olhos nos olhos.

o torso musculado exibe. promessas de

cama no olhar cúmplice de malícia. o

macho lusitano, sangue na guelra, latino.

gingão nas ancas, marinheiro nas pernas,

conhece do engate a técnica …..

e falha

http://www.youtube.com/watch?v=c4CQAgop2_s

em louvor das serras


(resta-me crescer para a terra)

pedregulhos imensos borbulhas disformes
cobrem a terra a água nasce gelada para a
minha sede nuvens raras brincam estranhos
jogos selvagem meio rude paisagem é noite

as trutas aguardam a hora de beijar no espelho
da lagoa as migalhas ancestralmente os homens
juntam-se em torno do fogo o fogo cerca a água
chamados nocturnos oiço a tenda pequena
junta-nos o chão duro magoa os corpos vivos

é manhã o corpo entrego à água
refrescando o cansaço para melhor morrer
então cresço para a terra 
só as serras crescem para o céu

(macieira; serra da gralheira; 2008)

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)

antónio feio (tóni) continua vivo, any way


bora lá tóni

uma gargalhada
os olhos rasos de tanto
(you know what i mean?)

um estar na vida como
no palco
um homem de todos os homens
uma gargalhada até à última
(any way)

partir partilhando
vertical
não consigo tony

agora quando te revir
serão as lágrimas por ti
pelo que estás a fazer
e eu ficarei sem saber

onde quer que estejas
onde quer que mores
há um colete de vaca pendurado
à espera que o vistas
umas bejecas, entre tremoços
e um cigarrito

http://www.youtube.com/watch?v=wnJRRibuExs

http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1630217&seccao=Teatro

http://www.youtube.com/watch?v=mvBlyt0CHOU