sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
sonho
que me lembrem
pelo que fiz
não pelo que fui

aparelhar
(torreira; 2016)
“Os intérpretes de vidas
…. Até que ponto podemos fiar-nos nos nossos amigos e conhecidos e sócios, nos nossos amores, nos nossos pais e nos nossos filhos? Quais as suas tentações e debilidades, ou o seu grau de lealdade e a sua fortaleza? …. E mais ainda: podemos prever que amigos vão virar-nos as costas um dia e converter-se em nossos inimigos? …. Podemos fiar-nos em nós, em que não seremos nós que mudaremos e nos viraremos e atraiçoaremos, que invejaremos um dia quem hoje mais amamos e não poderemos suportar o seu contacto nem a sua presença, e decidiremos reger-nos só pelo nosso ressentimento? …… “
(in Javier Marias, “O teu rosto amanhã”, 3º volume, “ Veneno e sombra e adeus” )

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
(praia de mira; 2010)

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
olha as mãos
no princípio eram as mãos
ferramentas únicas
alfabeto de gestos e sinais
do dizer ao fazer
tudo por elas era
vê como falam as mãos
como quebram o silêncio
atenta nelas e ouve
encontrarás nas mãos as respostas
para as perguntas que não fizeste
nelas tudo é claro e transparente
olha as mãos
como se um outro corpo
e não o são

(torreira; 2016)
ser
rente ao mar
sempre rente ao mar
a minha gente
sou com eles

(praia da leirosa; 2017)
então farão postais

vêm de longe as vozes
conheci algumas
respeitei muitas
conheci-os um pouco
homens mulheres
gente desta terra
de onde sempre
para o mar se partiu
e onde nem sempre
se regressou
ficou o mar
na areia varados
o barco e a arte
a companha renovada
até um dia
em que na praia vazia
deles só a areia
se lembrará
então farão postais

(torreira; 2016)
às mulheres da xávega
escrevo mulher
com éme de mar

a aurora e o aparelhar do saco
(torreira; 2016)
a mão de um amigo

a mão do ti alfredo fareja (falecido)
a mão de um amigo
será sempre
a mão de um amigo
mesmo se dela
a imagem
apenas
a imagem
opera na memória
a viagem no tempo
solares os dias ainda
os homens íntegros
inteiros
assim me acompanho
em dias de mais solidão
(torreira; 2006)
c.p. 3870-155

o mar não é falso
é da sua natureza imprevisível ser
falsos serão os que
quando deles se espera que homens
coisa de fraco valor se revelam
por tão pouco se venderem

(torreira; 2016)
contradições aparentes
morreu preso nas malhas
dos afectos
dos afectos que lhe tinham
alimentado os dias
não há contradição nisto
há em tudo

(torreira; reparar rede)
recriação de um lanço de xávega com bois

em 2001, a companha do joão da calada, na torreira, fez a última safra com juntas de bois. foi a última praia onde se viram bois a trabalhar no mar.
depois dessa data houve, que eu tenha registado, sabido e estado presente, duas recriações na vagueira, outras duas em espinho e uma na torreira, em 22 de setembro de 2013.
recordo que em 1852 foi promulgado o “Regulamento para as companhas de pesca da costa da Torreira”, não conheço mais nenhuma praia que a tal tenha tido direito. porque seria? talvez porque a torreira, à época era a praia em que mais companhas trabalhavam. era a capital da xávega.
era……
em 2013, ano de eleições autárquicas, o executivo da câmara municipal da murtosa decidiu, no dia 22 de setembro, levar a cabo uma recriação de um lanço de xávega – o mais bem conseguido de todos aqueles a que assisti.
quem conhece a torreira sabe que depois do s. paio começa o despovoamento e só volta a haver algum movimento ao fim de semana e retoma no verão do ano seguinte. pois no dia 22 de setembro de 2013 parecia, não só pelo tempo que fazia, que era verão outra vez: o areal estava cheio de gente que tinha vindo para assistir à recriação.
de então para cá, nem mais uma. a autarquia publicou um livro sobre o acontecimento e pronto.
nas festas do s. paio não há tradição de recriação de um lanço de xávega, os eventos tradicionais são na ria – regatas de moliceiros e bateiras à vela e corrida de chinchorros – fica para o mar a modernidade – cerveja, shots, djs ….. entre ria e mar, as noites no largo da varina.
nada tenho contra a modernidade no mar nem é, aqui e agora, o momento de as analisar, mas a verdade é que há que rentabilizar os investimentos.
mas ….
será que, uma vez que a autarquia não tem apoiado uma recriação anual, os privados – restaurantes, bares de praia e comércio em geral – , não poderiam financiar a recriação? ao fim e ao cabo lucrariam com a sua realização, provavelmente mais do que investiriam nela – porque é de investimento que falo e não de outra coisa.
não basta defender que a iniciativa privada é o motor da economia, é preciso prová-lo na prática. se o estado, neste caso a autarquia, não avança com o capital, porque é que os que privados não tomam a inciativa a seu cargo?
a iniciativa, a iniciativa, a iniciativa …. a iniciativa?
um ano tentavam, digo eu, se não desse tinham mostrado do que eram capazes e talvez a autarquia vendo o que tinham feito sem ela, viesse em vosso apoio.
ficam dois ditados populares: “quem não arrisca não petisca” e “quem tem barriga para caldos não vai a casamentos”.
será que a torreira já foi ou quer continuar a ser?
(torreira; 22 de setembro de 2013