vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
judas intemporal
judas era um bom homem
tão bom
que traiu o amigo e o vendeu
na versão canónica suicidou-se
numa nova leitura com o prémio
comprou terras para cultivo
a segunda versão parece-me
mais razoável
mais do nosso tempo aqui
intemporal

(torreira; 2010)
para o joaquim rodrigues
(massa)
queria dizer-te
que te admiro
massa
não porque cantes
melhor que o zé cabra
pior é difícil
tu nasceste para cantar
não porque a trabalhar
o faças como poucos
és energia pura
não pela tua alegria
os teus malabarismos
com o bordão na praia
és um artista nato
admiro-te
pela tua força interior
pelo modo como venceste
onde tantos sucumbem
tu és enorme massa
da tua fibra muitos
houvessem
massa assim é outra massa

(torreira; arribar da mão de barca; 2012)
para os devidos efeitos

quando eu morrer
não entreguem à terra
um corpo que sempre foi de mar
quando eu morrer
uma gaivota levantará voo
uma onda morrerá na praia
nada de anormal
são coisas que estão
sempre a acontecer
como
quando eu morrer

(torreira; 2010)
vidas com escamas
quantas safras
em quantos sacos
estas mãos
vidas com escamas
isso te digo
destes homens
destas mãos

(torreira; 2015)
até um dia
como se um filho
a rede nos braços
a vida ganha-se
não é oferecida
a mim não
a areia sob os pés
cede prende
pesados passos
o sol ainda não
e o arrais
deu ordens de mar
chego
chego e faço minha
esta praia
onde venho ao mar
buscar o pão
até um dia

(torreira; 2012)
dos capatazes
falam como se
donos fossem do que
lhes não pertence
porque nosso
não têm senão
a ilusão de um poder
efémero delegado
calçam sapatos luva
que nas mãos
melhor lhes ficariam
existem porque são
mandados para mandar
nada me custa
por esse mesmo motivo
mandá-los
sabem bem onde

mãos de mar, de trabalho, estas
estórias da berma da estrada *

se livro houvera
seria o título
disseste-me
conheço-te e
muitas estórias tuas
sei que
não haverá livro
porque
o título já o é
(* título roubado ao meu irmão domingos augusto)

(torreira; 2010)
escrever
escrever como se
em pedra
esculpir letras
nelas o sentir
ferir os dedos
calejar os olhos
estranho ofício este
de escrever o sorriso
a lágrima
entre linhas

alar
(espinho; 2012)
ser sem o outro
por dentro dos dias
sempre por dentro dos dias
abrir os braços aceitar
aprender com o tempo
saber cortar
o que de podre nele
numa outra mão os dedos
prendem o que de são
o esquecimento chega
como se uma manhã súbita
não és outro
és sem o outro

(torreira; remendar rede)