crónicas da xávega (217)


recriação de um lanço de xávega com bois

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em 2001, a companha do joão da calada, na torreira, fez a última safra com juntas de bois. foi a última praia onde se viram bois a trabalhar no mar.

depois dessa data houve, que eu tenha registado, sabido e estado presente, duas recriações na vagueira, outras duas em espinho e uma na torreira, em 22 de setembro de 2013.

recordo que em 1852 foi promulgado o “Regulamento para as companhas de pesca da costa da Torreira”, não conheço mais nenhuma praia que a tal tenha tido direito. porque seria? talvez porque a torreira, à época era a praia em que mais companhas trabalhavam. era a capital da xávega.

era……
em 2013, ano de eleições autárquicas, o executivo da câmara municipal da murtosa decidiu, no dia 22 de setembro, levar a cabo uma recriação de um lanço de xávega – o mais bem conseguido de todos aqueles a que assisti.

quem conhece a torreira sabe que depois do s. paio começa o despovoamento e só volta a haver algum movimento ao fim de semana e retoma no verão do ano seguinte. pois no dia 22 de setembro de 2013 parecia, não só pelo tempo que fazia, que era verão outra vez: o areal estava cheio de gente que tinha vindo para assistir à recriação.

de então para cá, nem mais uma. a autarquia publicou um livro sobre o acontecimento e pronto.

nas festas do s. paio não há tradição de recriação de um lanço de xávega, os eventos tradicionais são na ria – regatas de moliceiros e bateiras à vela e corrida de chinchorros – fica para o mar a modernidade – cerveja, shots, djs ….. entre ria e mar, as noites no largo da varina.

nada tenho contra a modernidade no mar nem é, aqui e agora, o momento de as analisar, mas a verdade é que há que rentabilizar os investimentos.

mas ….

será que, uma vez que a autarquia não tem apoiado uma recriação anual, os privados – restaurantes, bares de praia e comércio em geral – , não poderiam financiar a recriação? ao fim e ao cabo lucrariam com a sua realização, provavelmente mais do que investiriam nela – porque é de investimento que falo e não de outra coisa.

não basta defender que a iniciativa privada é o motor da economia, é preciso prová-lo na prática. se o estado, neste caso a autarquia, não avança com o capital, porque é que os que privados não tomam a inciativa a seu cargo?

a iniciativa, a iniciativa, a iniciativa …. a iniciativa?

um ano tentavam, digo eu, se não desse tinham mostrado do que eram capazes e talvez a autarquia vendo o que tinham feito sem ela, viesse em vosso apoio.

ficam dois ditados populares: “quem não arrisca não petisca” e “quem tem barriga para caldos não vai a casamentos”.

será que a torreira já foi ou quer continuar a ser?

(torreira; 22 de setembro de 2013

crónicas da xávega (213)


o meu país

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o carregar do saco

o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias

o meu país
é habitado
ainda

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

até quando?

(praia da leirosa; 2017)

crónicas da xávega (212)


destino de pescador

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem

quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os

partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam

aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã

não têm nome
não sei se o terão

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

(torreira; 2016)