Mês: Outubro 2010
as quatro estações
as quatro estações (IV)
as quatro estações (III)
é outono
vê como os campos são mais frios
e mais castanhos meus olhos
e as árvores
folha a folha me dispo
a ti chego despojado de todas
as minhas máscaras
nas águas límpidas
dos primeiros regatos
das primeiras chuvas
refresco os lábios
todo o meu corpo treme
na antevisão da lareira
ao fogo o amor
é outono
nem só o verão é ardor
caetano e o bordão
vergam-se as costas
ao peso das cordas
esticam-se os dorsos
ao brilho do sol
no amparar das mangas
quando vêm do mar
pendura neles o pescador
o farnel
o casaco
apetrechos vários
pesados fardos o bordão
de ombro a ombro carregava
cordas, canastras de sardinha
de ombro a ombro
de homem a homem
são eles que definem as fronteiras
que separam quem trabalha e do saco
tira o pão
de quem em férias, pensa que o trabalho
dos outros
pode caber em sacos de plástico
enchendo-os de peixe que do saco
salta na última esperança
de liberdade
( torreira – companha do murta – caetano da mata)
as quatros estações (II)
é verão
nos campos voam os insectos
mais quentes do ano
borboleta
voas de flor em flor
e eu sou a pétala em que poisas
gafanhoto devoras
as minhas folhas mais tenras
grão a grão o trigo cresce
e são mais vermelhas as papoilas
dos teus lábios
quem te falou do milho
e te contou das maçarocas?
o lento caminhar dos dedos
sabes tu
que pensas tudo saber
o que sabem as mãos
e o que sabem fazer?
lentas, hábeis
acariciam as redes
safam-nas de algas
limpam-nas de limo
sem pressas de urbano
sabes tu
que tudo sabes
que tudo tem o seu tempo
e todo o tempo cabe
em duas mãos de trabalho
em duas mãos que cantam
odes à ria
erguendo no tempo
um templo
onde orar é outra forma
de pescar?
sabias tu?
alberto pimenta “fastos IV”
as redes da solheira
admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes
com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água
meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores
(torreira – salvador belo)







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