as quatro estações (III)


serra da gralheira, o que resta?

 

é outono

vê como os campos são mais frios

e mais castanhos meus olhos

e as árvores

folha a folha me dispo

a ti chego despojado de todas

as minhas máscaras

nas águas límpidas

dos primeiros regatos

das primeiras chuvas

refresco os lábios

todo o meu corpo treme

na antevisão da lareira

ao fogo o amor

é outono

nem só o verão é ardor

caetano e o bordão


ti caetano da mata

 

(um dos instrumentos mais antigos da xávega é o “bordão” – tem este nome na praia da torreira e de “estacadão” na praia de mira)

vergam-se as costas
ao peso das cordas
esticam-se os dorsos
ao brilho do sol
no amparar das mangas
quando vêm do mar

pendura neles o pescador
o farnel
o casaco
apetrechos vários

pesados fardos o bordão
de ombro a ombro carregava
cordas, canastras de sardinha
de ombro a ombro
de homem a homem

são eles que definem as fronteiras
que separam quem trabalha e do saco
tira o pão
de quem em férias, pensa que o trabalho
dos outros
pode caber em sacos de plástico
enchendo-os de peixe que do saco
salta na última esperança
de liberdade

( torreira – companha do murta – caetano da mata)

Comentarios

as quatros estações (II)


é verão e tu ...

 



é verão

nos campos voam os insectos

mais quentes do ano

 

borboleta

voas de flor em flor

e eu sou a pétala em que poisas

gafanhoto devoras

as minhas folhas mais tenras

 

grão a grão o trigo cresce

e são mais vermelhas as papoilas

dos teus lábios

 

quem te falou do milho

e te contou das maçarocas?

 

o lento caminhar dos dedos


o safar do salvador

 

sabes tu
que pensas tudo saber
o que sabem as mãos
e o que sabem fazer?

lentas, hábeis
acariciam as redes
safam-nas de algas
limpam-nas de limo
sem pressas de urbano

sabes tu
que tudo sabes
que tudo tem o seu tempo
e todo o tempo cabe
em duas mãos de trabalho
em duas mãos que cantam
odes à ria
erguendo no tempo
um templo
onde orar é outra forma
de pescar?

sabias tu?

as redes da solheira


 

 

salvador belo

 

admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes

com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água

meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores

(torreira – salvador belo)