estória da ria


 

jim

jim

esgota-se o gesto

no movimento
suspende-se a mão
no instante

a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa

quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?

feitas
as contas
a paga
não chega
para

partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

xávega, os rolos de corda


ti miguel bitaolra

ti miguel bitaolra

o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é consituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.
o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

8 de março de 2014 (1)


ana tripas a cabritar

ana tripas a cabritar

a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.

é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.

são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.

o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.

na ria é assim

(torreira; cabrita baixa; 2012)

não digas nada


o lançar da cabrita

o lançar da cabrita

 

não digas nada

queda-te onde

olha apenas

sente tudo

sente

 

o silêncio

por dentro

enche-se de

palavras

que

nunca dirás

porque nada dirão

do que viste

 

depois parte

não digas o como

não o saberás

diz que venham

tão só isso

 

não digas nada

 

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta)

pancada de mar


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.

é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.

para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.

se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.

(torreira; companha do marco; 21010)

cisnes da ria (1)


 

 

moliceiros de velas ao vento

moliceiros de velas ao vento

 

a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida

o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa

foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria

moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele

escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia

(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)