acender o instante


por detrás da mão, mário laginha

por detrás da mão, mário laginha

 

regresso

ao silêncio vestido de música

das notas escritas numa folha

não as entendo

olhos guiam mãos fraseados

que se perdem na criação de

 

escuto

a fuga das vozes para uma só boca

o marfim rebrilha à carícia dos dedos

estendo os olhos por sobre a sombra

busco uma luz possível

 

acendo o instante

 

(tone music school, coimbra; abril 2014)

 

*******************************************************************************

 

um piano
um homem
uma voz
uma mulher

jazz

laginha, o mário
rita maria
os que souberam
foram felizes

momentos luminosos

DSC_6896_tone rita maria DSC_6906_tone_mario laginha DSC_6907_tone_mario laginha DSC_6910_tone_mario laginha DSC_6913_tone rita maria DSC_6917_tone_mario laginha DSC_6918_tone rita maria DSC_6927_tone_mario laginha DSC_6939_tone_mario laginha DSC_6954_tone rita maria DSC_6960_tone_mario laginha DSC_6962_tone rita maria DSC_6972_tone_mario laginha DSC_6975_tone_mario laginha DSC_6979_tone rita maria DSC_6983_tone_mario laginha DSC_6995_tone_mario laginha+rita DSC_6999_tone rita maria DSC_7007_tone_mario laginha DSC_7015_tone_mario laginha DSC_7028_tone_mario laginha DSC_7046_tone_mario laginha DSC_7052_mario laginha DSC_7057_tone_mario laginha+rita DSC_7063_tone_mario laginha DSC_7069_tone_mario laginha DSC_7072_tone rita maria DSC_7082_mario laginha DSC_7085_mario laginha

recriação da xávega; praia da vagueira, 2008


 

juntas de bois na praia da vagueira

juntas de bois na praia da vagueira

 

neste registo feito em 2008, na praia da vagueira, com a companha “o vencedor”, notam-se as seguintes características na junta de bois em primeiro plano:

 

– a canga é gandaresa, pequena e sem as decorações ricas das cangas vareiras

– os bois pequenos, demasiado para a tarefa que lhes é pedida (maiores os marinhões, bois de força criados para trabalhos pesados)

 

são estes pequenos pormenores que permitem identificar o onde e o como a memória é recriada.

 

(praia da vagueira; 2008)

um presente para gabo


 

 

regata de moliceiros, murtosa, bico, 2007

regata de moliceiros, murtosa, bico, 2007

guardei-te um momento
longe de tudo
o que te era familiar
queria-o assim
único

presente de um passado
em que te habitei sem o saberes
em que fui outro só porque
te conheci sem que me conhecesses
eu era apenas mais um
de entre todos os que para ti
eram o mundo

hoje continuo a ser teu habitante
quando tu já não te sentas na cadeira do costume
com os amigos de sempre
porque partiste
para lado algum
partiste
só isso

abraço-te agora como nunca
por dentro das palavras que deixaste
para mim não partiste
pela simples razão que sempre te tive
como te tenho hoje
embrulhado em palavras mágicas

são para ti estes barcos
gabo
navega com eles e sê onde

encontramo-nos por aí

 

 

hoje morreu gabo e não morreu


 

cabrita de pé nos cabeços da ria

cabrita de pé nos cabeços da ria

 

(“gabriel garcia marquez ou a história de um deicídio”
mario vargas llosa)
o tempo gabriel
o tempo
o tempo que tu tão bem
construíste e desconstruíste

algures  na floresta de maconde
um coronel
mortes anunciadas
(a tua a nossa a de todos)
cem anos
putas tristes
quantas histórias
fantasticamente reais
os buendia sempre

o tempo levou-te
o tempo
de estares aqui gabo

a névoa envolve tudo
a labuta dos dias da escrita
dos jornais dos livros dos editores
das palavras
gabo

por entre uma outra névoa
três homens arrancam da lama da ria
com que sobreviver nesta terra
nunca te leram
não sabem quem és

mas foi para eles
foi por eles que escreveste

abraço gabo

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

a alegria da xávega


 

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

 

um momento raro em que todos se juntam para o mesmo prazer: a xávega

o vitor, o alfredo e o rui, representam o abraço no mar, dos jovens, sejam eles portadores de deficiência ou não.

ao rui, de costas na fotografia, portador de uma deficiência mental algo profunda, não há maior alegria do que poder ajudar nos trabalhos do mar.

a alegria que foi para ele ir um dia ao mar, ler-lhe essa alegria no rosto, foi um dos momentos mais belos a que assisti.

 

(torreira; companha do marco; 2010)

até quando?


 

 

os cisnes da ria ainda em bando

os cisnes da ria ainda em bando

tudo agora é aqui
assim te sentes perante estas imagens
nada existe para além de
nada é
nada

suspendeste o tempo
és

regressas por instantes e
refazes tempos e cenários
a memória é a mão que te guia
nesta viagem quase impossível ao tempo
quando
ao lugar onde
tudo é recriado para ser mais ainda

suspendeste o tempo
sacodes o cabelo
voas no vento onde os cisnes

até quando?

 

(regata de moliceiros; bico; murtosa; 2007)

massa, uma história de sucesso


 

massa, joaquim rodrigues

massa, joaquim rodrigues

o massa, joaquim rodrigues, é neto do arrais faustino, nascido na murtosa e arrais de renome em meados do século XX, com nome de rua na torreira.

mas não é esta a história que aqui quero deixar. é a dos pescadores e do vinho, uma relação explosiva e histórica, muito pouco entendida por quem devia olhar fundo a vida destas comunidades.

escreveu o almirante jaime afreixo, na revista “a tradição” de beja, um conjunto de artigos subordinados ao tema “Pescas Nacionais: A Região de Aveiro”, no qual, e cito de memória, faz referência a uma das formas de pagamento dos arrais aos pescadores:

a marinha

era paga antes do primeiro lanço do dia e era constituída por pão e um quartilho de vinho (meio litro) que podia ser reforçada, em dias de mar mais bravo, por uma dose de aguardente.

se considerarmos que nas companhas se entrava muitas vezes com 9 anos de idade, fica-se com uma ideia de como era feita a iniciação dos jovens no mundo do vinho.

no mesmo artigo, jaime afreixo, diz ainda ser normal que os arrais ou donos da companha serem também proprietários de tascas que forneciam o vinho.

falamos de finais do século XIX, princípios de XX.

o massa, conseguiu vencer o vício de anos e, sem quaisquer aditivos, cortou completamente com o álcool há já bastantes anos, e mesmo na companhia de amigos, nem uma cerveja…. tem sempre uma garrafa de água.

é de fibra este massa.

 

nota: ao citar de memória, posso ter cometido alguma menos correcta informação, mas a ideia fica

 

(torreira; companha do marco; 2010)

a propósito dos 40 anos do 25 de abril


 

 

porto de abrigo da torreira, na maré cheia

porto de abrigo da torreira, na maré cheia

 

(meditação com a ria em fundo)

que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães

40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães

canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação

outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto

e patas sujas

 

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)