o estender do saco


 

 da esq. para a dir. joão pequeno, cebola, vitor caravela e na boca do saco o nicole


da esq. para a dir. joão pequeno, cebola, vitor caravela e na boca do saco o nicole

 

hoje 25 de abril de 2014, 40 anos depois do dia da revolução dos cravos, quero dedicar esta foto a todos os que sempre souberam trabalhar em conjunto: as companhas deste país, sejam de mar, sejam do campo.

não tenho quaisquer pretensões como fotógrafo ou como escrevedor de coisas, mas tenho uma ambição que ao longo dos anos espero ter vindo a cumprir, a divulgação da xávega e daqueles que a ela se dedicam.

com eles alguns dos melhores momentos da minha vida, entre eles as minhas raízes, por eles estas fotos, estes conhecimentos que tenho procurado transmitir, os rostos levados pela net às famílias emigradas.

por isso, espero que tenha vindo com a qualidade mínima do meu trabalho  – para uns talvez demasiado repetitivo -, a prestar-lhes a merecida homenagem e dar a conhecer a um outro público o seu labor.

para o que sei contribuíram pescadores da praia da torreira, com os seus conhecimentos da arte, que se mostraram sempre dispostos a identificar os pescadores que constavam das fotos e me permitem ir construindo uma galeria de rostos com nome.

porque escrevo isto hoje? porque me apeteceu e para que conste
(torreira; companha do marco; 2010)

nos 40 anos do 25 de abril


caminhos de abril

caminhos de abril

 

foram cravos que de balas
cansados estavam os que seguiram
o plano desenhado para a paz
por mãos certeiras e sábias
o segredo fora bem guardado

espalhados pela terra que pisamos
pedaços de corpos ou o suposto de o terem sido
vindos de guerras compradas por outros
onde como em todas entre morrer ou matar
não havia outro caminho
fugidos muitos de outras terras diziam
como os nossos

foram cravos e povo
foi um povo que não mais quis ser escravo
foram homens e mulheres
foi um dia diferente em que o sol nasceu
noite ainda
renovado acordou o país

quarenta anos passados
cansado de novo de outros senhores
de outros senhores
há quem continue disposto a lutar
pela beleza do sonho inconcretizado
aos quarenta anos não se está velho
nunca é tarde aos quarenta

o povo é sereno alguns dirão
também o plaino antes do furacão

o fim, meu amigo


 

a bateira dorme

a bateira dorme

aqui estou encalhado
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais um serei
a somar aos que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 
(ria de aveiro; torreira)

nicole e o carapau


nicole

nicole

 

 

está a acabar a minha safra fotográfica do ano de 2010, os momentos aproximam-se do fim. foram muitos, mas este é um dos que mais me toca.

o nicole veio da ucrânia em busca do oiro português, como muitos seus compatriotas trabalhou nas construção civil, sem contrato, sem horário, sem condições.

até que um dia, os músculos cederam ao martelo compressor e o braço ficou incapaz de contribuir para a sua subsistência na construção civil.

veio para a torreira onde, dizia ele, tinha encontrado entre os pescadores uma nova família. vi-o sempre bem disposto porque era verão.

2010 foi o seu último ano em portugal, regressou à ucrânia e pouco tempo depois morreu.

entre nós ficaram laços de amizade selados pelo mar e seus frutos.

por mais que fale do nicole, nunca digo tudo, porque nunca sou capaz de me despedir dele, continua a sorrir e a estar aqui.

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)