porque hoje há benfica
porque há esperança
porque andamos tristes
porque eu não sou fanático
mas
sou do benfica
vermelho
vermelhinho
vamos lá
pelo menos fomos lá
(bateira do salvador rilho “chalana”)
largados já foram todas os rolos do reçoeiro, chegámos ao local definido pelo arrais para fazer o lanço. para tentar a sorte, para tentar ser ouvido por deus nas preces que fez ao largar.
a distância da costa a que se faz o lanço depende da “intuição” do arrais, ou do resultado de lanços anteriores da companha ou de outras vizinhas.
é claro que quanto mais longe da costa forem lançadas as redes, mais área é “varrida”, maior a probabilidade de um cardume ser apanhado, de mais peixe “vir” na rede. mas, e isto é muito importante, quando se trata de pesca artesanal, é a sorte que decide. de outros factores falarei noutro momento.
o calão da manga do reçoeiro vai ser lançado ao mar, repare-se na função de “passadiço encaminhador” desempenhada por um bordão, que um camarada segura e se apoia numa furação feita na beirada do barco.
tudo agora é lento, preciso, o motor quase parado, o silêncio é interrompido somente por algum reparo do arrais no largar das redes.
este é, para mim, o momento que justifica o ter vindo. a sensação de não estar em lado nenhum e em toda a parte, é agora.
(torreira; companha do marco;2011)

sei do tempo o ter sido
o ser ainda hoje o agora
o instante tudo o que
regresso sempre
aos mesmos locais
e já nada é o que recordo
revivo e não sou já
nada é
fui onde já não
aí permanece a memória
a viagem é irrepetível
viver é tão só
ser no instante

(torreira)
vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.
vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.
note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.
cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.
(torreira; companha do marco; 2011)
no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.
neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.
o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.
(torreira; companha do marco; 2011)
a propósito de “para onde foram os guarda-chuvas”
mais um excelente livro de afonso cruz, com outro livro lá dentro – “Fragmentos Persas”.
a quem ainda não conhece o autor, recomendo este livro e depois… depois há os anteriores e vai-se até ao princípio possível.
mas não é do que escreveu o autor que quero falar, é do que a editora escreveu, isso sim, muito interessante.
no verso da penúltima página do livro, há uma “NOTA DA EDITORA”, que transcrevo
“ Entre os 5000 exemplares da primeira edição deste romance existem 2 que são completamente diferentes: um é a versão diurna, outro a sua versão nocturna.
Se o seu exemplar contém a palavra <Ankara>, escreva-nos para correio@objectiva.pt.
Temos uma oferta para si”
como encomendei o livro mal soube da edição e o li em pouco tempo, com afonso cruz é assim, a 100 à hora, cheguei ao final, li a “Nota Editorial” e, no dia 26 de outubro, enviei um e-mail para o endereço indicado, imbuído do estilo do livro que tinha acabado de ler:
“com licença
o meu exemplar de ” Para onde vão os guarda-chuvas” contém a palavra “Ankara”, aliás como em todos os outros já que, penso, a nota está em todos .
fragmento persa não encontrado
” disse Ali: muitos sabem ler, ó crente, porém nem todos sabem o que leram. alá seja louvado”
cumprimentos “
como não obtive qq resposta, voltei ao ataque no dia 29, com novo e-mail no espírito do livro. foi assim:
com licença
a haver, a vossa maior surpresa para mim, seria o envio, a pagar, do livro “A carne de Deus”, o único romance de Afonso Cruz que não tenho.
fragmento persa nunca encontrado
” disse Ali: os livros não vão para o mesmo sítio que os guarda-chuvas, ó crente, mas também andam muitos infiéis à sua procura. alá seja louvado”
ao fim destes meses todos, nada. esqueci e não esqueci. a semana passada, por mero acaso encontro-me com um representante da editora e conto-lhe o que se passou.
que sim, que havia dois exemplares diferentes, que eu não devia ter enviado o mail para endereço correcto. quanto ao facto de a nota da editora ser algo sem sentido, remeteu para …. nem me lembro quem, porque afinal “há sempre outro”.
é pena que a edição dos nossos melhores autores esteja assim entregue a quem brinca com a língua que parece desconhecer.
fica aqui o desabafo e a melhor coisa é não acreditar no que lês, isso é ficção, embora não seja da melhor.
por favor leiam o livro e todos os outros do afonso cruz, ele não tem culpa
continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo e faz um arco, bem visível no mar.
na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.
acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.
começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.
a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.
(torreira; companha do marco; 2011)
souberam dele porque
sabem de todos os que lhes interessam
os números somam-se nas máquinas
onde todos somos mais um
menos um
conforme as existências e as necessidades
estatísticas de interesses
depois de ter sido despojado de tudo
o que pensava ter ainda para viver
depois de tantos anos a dar para receber
recebeu a nova de que não ia receber o que
que apesar de trabalhar mais
iria ganhar menos
que mau grado os sacrifícios
o mínimo era o que lhe pagavam se ficasse
antes de partir
não perdeu tempo
em três sacos negros como os tempos
que se avizinhavam
juntou o que tinha e foi depositá-lo no banco
mais próximo
afinal era nos bancos que tudo começava e acabava
lixo depositou
afinal
nada mais quis que
uma saída limpa