ir ao mar com o marco (6)


 

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

 

largados já foram todas os rolos do reçoeiro, chegámos ao local definido pelo arrais para fazer o lanço. para tentar a sorte, para tentar ser ouvido por deus nas preces que fez ao largar.

a distância da costa a que se faz o lanço depende da “intuição” do arrais, ou do resultado de lanços anteriores da companha ou de outras vizinhas.

é claro que quanto mais longe da costa forem lançadas as redes, mais área é “varrida”, maior a probabilidade de um cardume ser apanhado, de  mais peixe “vir” na rede. mas, e isto é muito importante, quando se trata de pesca artesanal, é a sorte que decide. de outros factores falarei noutro momento.

o calão da manga do reçoeiro vai ser lançado ao mar, repare-se na função de “passadiço encaminhador” desempenhada por um bordão, que um camarada segura e se apoia numa furação feita na beirada do barco.

tudo agora é lento, preciso, o motor quase parado, o silêncio é interrompido somente por algum reparo do arrais no largar das redes.

este é, para mim, o momento que justifica o ter vindo. a sensação de não estar em lado nenhum e em toda a parte, é agora.
(torreira; companha do marco;2011)

ser no instante


dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

 sei do tempo o ter sido
o ser ainda hoje o agora
o instante tudo o que

regresso sempre
aos mesmos locais
e já nada é o que recordo
revivo e não sou já
nada é

fui onde já não
aí permanece a memória
a viagem é irrepetível

viver é tão só
ser no instante

dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

(torreira)

ir ao mar com o marco (5)


 

 

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.

 

vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.

 

note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.

 

cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (4)


 

o reçoeiro laçado na bica da ré

o reçoeiro laçado na bica da ré

 

no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.

neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.

o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

quando os editores escrevem……


a capa do livro

a capa do livro

 

a propósito de “para onde foram os guarda-chuvas”

mais um excelente livro de afonso cruz, com outro livro lá dentro – “Fragmentos Persas”.

a quem ainda não conhece o autor, recomendo este livro e depois… depois há os anteriores e vai-se até ao princípio possível.

mas não é do que escreveu o autor que quero falar, é do que a editora escreveu, isso sim, muito interessante.

no verso da penúltima página do livro, há uma “NOTA DA EDITORA”, que transcrevo

 

Entre os 5000 exemplares da primeira edição deste romance existem 2 que são completamente diferentes: um é a versão diurna, outro a sua versão nocturna.

Se o seu exemplar contém a palavra <Ankara>, escreva-nos para correio@objectiva.pt.

Temos uma oferta para si

 

como encomendei o livro mal soube da edição e o li em pouco tempo, com afonso cruz é assim, a 100 à hora, cheguei ao final, li a “Nota Editorial” e, no dia 26 de outubro, enviei um e-mail para o endereço indicado, imbuído do estilo do livro que tinha acabado de ler:

 

com licença


o meu exemplar de ” Para onde vão os guarda-chuvas” contém a palavra “Ankara”, aliás como em todos os outros já que, penso, a nota está em todos .

fragmento persa não encontrado

” disse Ali: muitos sabem ler, ó crente, porém nem todos sabem o que leram. alá seja louvado”

cumprimentos

 

como não obtive qq resposta, voltei ao ataque no dia 29, com novo e-mail no espírito do livro. foi assim:

 

com licença

a haver, a vossa maior surpresa para mim, seria o envio, a pagar, do livro “A carne de Deus”, o único romance de Afonso Cruz que não tenho.

fragmento persa nunca encontrado

” disse Ali: os livros não vão para o mesmo sítio que os guarda-chuvas, ó crente, mas também andam muitos infiéis à sua procura. alá seja louvado”

cumprimentos”

 

ao fim destes meses todos, nada. esqueci e não esqueci. a semana passada, por mero acaso encontro-me com um representante da editora e conto-lhe o que se passou.

que sim, que havia dois exemplares diferentes, que eu não devia ter enviado o mail para endereço correcto. quanto ao facto de a nota da editora ser algo sem sentido, remeteu para …. nem me lembro quem, porque afinal “há sempre outro”.

é pena que a edição dos nossos melhores autores esteja assim entregue a quem brinca com a língua que parece desconhecer.

fica aqui o desabafo e a melhor coisa é não acreditar no que lês, isso é ficção, embora não seja da melhor.

por favor leiam o livro e todos os outros do afonso cruz, ele não tem culpa

 

ir ao mar com o marco (3)


rumo ao norte

rumo ao norte

continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo  e faz um arco, bem visível no mar.

na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.

acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.

começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.

a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.

 
(torreira; companha do marco; 2011)

saída limpa


 

 

um depósito inovador

um depósito inovador

 

souberam dele porque
sabem de todos os que lhes interessam
os números somam-se nas máquinas
onde todos somos mais um
menos um
conforme as existências e as necessidades
estatísticas de interesses

depois de ter sido despojado de tudo
o que pensava ter ainda para viver
depois de tantos anos a dar para receber
recebeu a nova de que não ia receber o que
que apesar de trabalhar mais
iria ganhar menos
que mau grado os sacrifícios
o mínimo era o que lhe pagavam se ficasse

antes de partir
não perdeu tempo
em três sacos negros como os tempos
que se avizinhavam
juntou o que tinha e foi depositá-lo no banco
mais próximo
afinal era nos bancos que tudo começava e acabava

lixo depositou
afinal
nada mais quis que
uma saída limpa