
postais da ria (299)




(torreira; porto de abrigo; 2018)


doloroso bailado este
olhares cegos

será negra a noite
mas nela encontrarás luz
suficiente
entre noite e noite
muitas cores povoarão
o dia e o teu registo
mas
a cor do dinheiro
ficou esquecida
nos teus postais
olha como quem vê
não como quem ignora
(torreira; safar redes; 2016)
lembrando joaquim namorado
torreira
torreira é nome
de mulher
feito terra
escuto a sua voz
a camaradagem
o ser completa
torreira é o mar
os barcos
as companhas
é o rio as gentes
os saberes
o pouco de tanto
o mais por belo
que seja
vazio de corpos
é paisagem

(torreira; safar redes; 2018)
impossível
impossível safar a vida
como quem redes safa
as mágoas que nas malhas
dos dias presas ficaram
não há mãos que as tirem
gestos que as sacudam
arredem para longe
límpidos ficassem os dias
de o terem sido sempre
estar vivo por vezes dói
safassem-se e outro seria
o que nestas palavras
preso ficará sem remédio
impossível safar a vida
como quem redes safa

(torreira; safar redes; 2013 )
do saber ser

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
meticulosas mãos
sábias precisas
limpam redes reparam-nas
novas fazem se
haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito
aprende com elas
o ser e o ter sido
há avarias irreparáveis
redes perdidas
meticulosas as mãos
sabem-no

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
(torreira; entralhar; 2013)
a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)