



mau feitio

os rilho, pai e filho, a mesma faina
chamam-lhe rio
e é salgada a água
chamo-lhe memória
e é cada vez mais isto
imagens penduradas
nos olhos onde amigos
nascentes de sentir
chamo-lhe mar e digo
há outras praias
onde a mesma gente
com outros nomes
a mesma arte
tens mau feitio dizem
sabes não é fácil
ser rio de água salgada
(torreira; cirandar; 2016)
do homem

a vara ainda e sempre
que dizer de ti
se és tantos
resistir dói
(torreira; 2018)
recuso-me

o falecido carlos aldeia e o balde com o caranguejo para as enguias
na areia inventar
a pedra
nas nuvens erguer
muralhas
nos pulsos fechar
grilhetas
quebrei todas grades
de todas as janelas
recuso-me a esperar
a morte
continuo a correr atrás
do vento
(torreira; porto de abrigo; 2013)
da vida

o jacinto arruma as redes da solheira
na nascente saberá
o rio do mar?
(torreira; 2018)
do sonho

tudo se desgasta
só tu permaneces

(torreira; s. paio; chinchorros; 2013)
da amizade

há quantos anos
foi ontem?
(torreira; safar; 2018)m safa
sorrio de mim

safar as redes da solheira
sou a memória
de ter sido
habito-me emalhado
na rede dos dias
reinvento-me
em tudo o que faço
sorrio de mim
(torreira; porto de abrigo; 2013)
da escrita

o safar das redes da solheira
só escrevendo
me liberto
do que sinto
safar de outras
redes
da arte de viver
hoje não escrevi
(torreira; 2018)
meditação com a ria em fundo

o ti zé rebeço, homem da ria
quem sou fez-se
quem me fez
não sei se o sabe
vou rente ao mar
enterro na areia os pés
equilíbrio precário
porém seguro e firme
crescemos aprendendo
dolorosamente por vezes
o cuidado no colher
da rosa
é evitar os espinhos
se visíveis forem

ti zé rebeço, a ria como casa
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio ; 2013