postais da ria (291)


tremo muito
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safam-se as redes para que se não safem os chocos

 
vêm devagar as palavras
cansadas de tanto
 
carregadas de memória
vergam-se
 
está frio cada dia mais
cubro-me com 
letras nomes sons
 
tremo
tremo muito
 
vão depressa as palavras
urge guardá-las
 
(torreira; 2018)

à conversa com mestre antónio esteves (pardaleiro)


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o mestre a trabalhar com serra tradiconal

em julho de 2018, no estaleiro junto à ribeira das bulhas , em pardilhó, conversei com o mestre antónio esteves (pardaleiro), primo do mestre murtoseiro, falecido em janeiro de 2019, joaquim raimundo.
aos 78 anos continua a construir e reparar os barcos que lhe encomendam. as perguntas foram à medida do meu saber e poderão ter ficado aquém do que o mestre merecia. mas, como diz o povo, quem dá o que tem ….
foi aprendiz do mestre henrique lavoura de quem “herdou” o pau de pontos, que já vinha do mestre joaquim rato – da bestida para pardilhó a caminhada da tradição.
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à data da conversa nenhum de nós imaginava que mais um moliceiro lhe iria sair das mãos, mas há sempre – até quando ? – surpresas na ria. no momento em que esta conversa é publicada está em fase de conclusão mais um moliceiro.
lá estarei no bota-abaixo
o mestre antónio esteves (pardaleiro) é o mais antigo mestre construtor naval em actividade e foi, será sempre, um prazer ouvi-lo
da conversa fica o vídeo possível

postais da ria (289)


gente da ria
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conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
 
são muitos anos
ou
foram muitos anos
 
conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
adivinho famílias
 
artes de pesca
artistas alguns
no engano de
 
nas malhas dos dias
muitos ficaram aqui
não presos guardados
 
(torreira; safar redes; 2016)

postais da ria (288)


sopa de letras
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cirandar para a borda

 
a menina maria
e o ti zé augusto
foram os meus avós paternos
 
na ladeira das fontainhas
em setúbal
bairro de murtoseiros
e pescadores
tiveram uma mercearia
uma taberna e seis filhos
 
quando a sopa da menina maria
era mais cheirosa
o aroma corria pela ladeira
até casas menos abonadas
de onde vinham grávidas
com uma malga para uma sopinha
senão ficavam ógadas
sorria a menina maria
 
lembrei-me desta história
a propósito de certas visitas
a malga agora é outra
e a sopa é de letras
 
(torreira; cirandar; 2013)

postais da ria (286)


dos amantes
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o salvador e a maria do carmo, marido e mulher, camaradas

não sabem de pedras
mas de palavras e gestos
os amigos
perguntam antes de
sabem-te o bastante para
os amigos
não serem como amigos
os amantes
ou serem mais ainda
(torreira; safar redes; 2018)

postais da ria (285)


como o mário
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o diamantino arruma as redes, vai começar a época do berbigão

caminhos sonhos
homens mulheres
desencantos
 
o cansaço chegou às raízes
 
um assento de pedra
sólido mesmo se frio
onde poisar-me
 
o cansaço chegou às raízes
 
por entre as malhas da rede
escoam-se palavras
e silêncios
 
quero dormir como o mário
 
(torreira; arrumar das rede; fim da época dos chocos; 2018)

postais da ria (284)


escrevi-me
 
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o falecido ti zé costeira regressava de mais uma pescaria, a remar à ré como numa #caçadeira

recuso-me a ser água
onde barcos a navegar
barco serei eu
 
sou as minhas palavras
sinto-me nelas são-me
 
recuso-me a ser vaso
onde flores plantadas
flor serei eu
 
dentro da garrafa de belo rótulo
o vinho azedou
enganado foi quem o comprou
 
recuso o carnaval
só em veneza
belas as máscaras
 
sou e assino
escrevi-me
 
(torreira; 2013)