hoje é dia oito de abril
de dois mil e vinte e cinco
um dia como qualquer outro
quando todos os dias
forem iguais a todos os dias
então um desses dias
será o meu dia
(fazer estopa; ria de aveiro; torreira; 2018)
os moliceiros têm vela (566)
a minha língua é filha e mãe
pare e acolhe é colo e berço
a minha língua é viva
a minha língua tem as portas
abertas às palavras
às gentes às geografias
a minha língua é antiga e jovem
é muitas linguas é rio
rico de afluentes desagua em delta
a minha língua é livre
se acordos quiseram acorrentá-la
oiçam-na migrante na sua terra
a minha língua é pacífica
mais que isso humilde
resigna-se a que dela mal digam
e o façam usando-a
a minha língua já foi e há-de ser
mais que os que a usam
permanecerá no tempo
sorrindo ao mundo portuguêsmente
a minha língua não tem dono
e só é minha porque a uso
não porque me pertença
e tua será se a usares
não mordas a tua língua
o sangue pode sufocar-te
(moliceiro; regata da ria; torreira; 2014)
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)