sobre coimbra
os olhos deitam-se
e sonham o terem sido
praça do comércio
beco com saída
fui muito mais do que serei
o tempo é-me agora adverso
o tempo e os homens que nele
consomem o pouco que de mim
resta
as glórias de ter sido
os feitos secretos de um quotidiano digno
os beijos dados e pedidos
os filhos os amigos os amores
as memórias as lutas
sou cada dia mais cada dia menos
esperava mais
esperava o que sempre esperei
como eu tantos
o respeito a dignidade a consideração
um fim de acordo comigo
com o que fui
o que fiz
o que sou
o que merecemos
agora
olho tudo com medo de que mais um
me diga não és
porque não pode dizer não foste
amargam-me o futuro escasso
porque não me podem roubar a vida vivida
tenho-os em pouca conta
que pouco valem no serem assim abjectos
não deixarei porém que me calem
mesmo que agora já não tenha as forças que tive
os meus murmúrios serão o grito da revolta
CANALHAS
estou num beco
com saída
soletro o teu nome
com a lentidão
que levo
a saber-te
o prazer
não é coisa
de segundos
desconhece relógios
e outros aparelhos
de medida do tempo
soletro o teu nome
como se te beijasse
no areal imenso
deita-se o dia
em busca do silêncio
um lençol de água cobre-lhe
os pés cansados
de tanto andar
a claridade não ofusca
o dia sequer a busca
escuto e olho
na ânsia de nada perder
que a beleza é rara
e perdê-la é crime
falarei ainda do
silêncio
da memória de
ter sido
do sopro no teu
ouvido
de dois corpos
nus
de duas sedes
de duas fomes
de um só desejo
no mesmo beijo
falarei ainda do
silêncio
até que não me
oiçam
até que dentro de ti
me sintas
e seja o nosso
o grito