postais da minha coimbra_18


sobre coimbra
os olhos deitam-se
e sonham o terem sido
praça do comércio
beco com saída


fui muito mais do que serei
o tempo é-me agora adverso
o tempo e os homens que nele
consomem o pouco que de mim
resta

as glórias de ter sido
os feitos secretos de um quotidiano digno
os beijos dados e pedidos
os filhos os amigos os amores
as memórias as lutas
sou cada dia mais cada dia menos

esperava mais
esperava o que sempre esperei
como eu tantos
o respeito a dignidade a consideração
um fim de acordo comigo
com o que fui
o que fiz
o que sou
o que merecemos

agora
olho tudo com medo de que mais um
me diga não és
porque não pode dizer não foste
amargam-me o futuro escasso
porque não me podem roubar a vida vivida

tenho-os em pouca conta
que pouco valem no serem assim abjectos
não deixarei porém que me calem
mesmo que agora já não tenha as forças que tive
os meus murmúrios serão o grito da revolta
CANALHAS

estou num beco
com saída

os moliceiros têm vela (477)


era uma vez no oeste

falarei ainda do
silêncio
da memória de 
ter sido
do sopro no teu
ouvido

de dois corpos 
nus 
de duas sedes
de duas fomes
de um só desejo
no mesmo beijo

falarei ainda do 
silêncio

até que não me
oiçam

até que dentro de ti
me sintas

e  seja o nosso
o grito

(murtosa; regata do bico; 2010)