os moliceiros têm vela (258)


urgente

0 ahcravo_DSC_6740 bw

ao longe
muito ao longe
a memória

algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco

urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda

dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer

ao longe
muito ao longe

havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco

eu

0 ahcravo_DSC_6740

(regata do s. paio; 2016)

os moliceiros têm vela (257)


gosto de moliceiros

0 ahcravo_DSC_2082

à janela o gato
olha e lambe os bigodes
recorda os tempos duros
da rua do não saber quando
do passar mal

arriscou sofreu
ganhou
não esqueceu
mas cansou
olha só

à janela o gato
quantos à janela?

não gosto de gatos
e gostos não se discutem

gosto de moliceiros
e da garra com que alguns
se fazem do tamanho do barco
porque são maiores
e não conhecem janela onde

0 ahcravo_DSC_2082 bw

(regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (251)


sou vela

0 ahcravo_SC_7009

a bordo do moliceiro do ti abílio

abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela

0 ahcravo_DSC_7009 bw

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”

(torreira; regata do s. paio; 2016)

os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

0-ahcravo_dsc_1818

o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

 

os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

0-ahcravo_dsc_2327-sep

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

os moliceiros têm vela (247)


“o moliceiro e o fotógrafo”

0-ahcravo_dsc_6936

o carlos lopes franco e o ti abílio

4 de setembro de 2016, dia maior das festas do s. paio, na torreira: DIA DA REGATA DOS MOLICEIROS.

o maior desejo de qualquer amante da fotografia é participar na regata e fotografá-la de dentro de um barco, mas o regulamento só deixa que a tripulação seja no máximo de 3 camaradas e como são sempre os necessários, este desejo não passa disso.

no s. paio de 2016 reparei que o ti abílio parecia ir navegar sozinho e eu e o carlos lopes franco, que tinha vindo de lisboa para fotografar a regata …… o vento não era muito e perguntei ao ti abílio: quer dois camaradas que não vão fazer nada? a resposta foi imediata: saltem para dentro.

no breve registo que aqui fica, pode ver-se a energia de um homem com 80 anos de idade ao leme de um moliceiro e como o faz navegar sem ajuda de mais ninguém.

para os que gostam da brejeirice de alguns painéis de moliceiros fica também um apontamento de um momento de brejeirice a bordo do barco, um momento “à ti abílio”. é preciso conhecê-lo.

não é fácil repetir registos como este, não será perfeito, mas foi o possível tendo em conta o saber do operador de câmara: eu.

não houve qualquer acrescento de música de fundo porque quis que o registo fosse o mais fiel possível ao vivido. por precaução a câmara estava protegida contra qualquer projecção de água, pelo que a captação de som é algo deficiente. melhorei-a como pude mas sem inventar.

e….. ainda há mais. Cada tripulante tinhea direito a uma medalha de participação, nem eu nem o carlos algumas vez pensámos nisso, mas o ti abílio pensou e sai-se com esta:

AS MEDALHAS SÃO PARA O CRAVO, PARA O SR. CARLOS E PARA O OUTRO AMIGO DE LISBOA (o josé silveira que tinha conhecido o ti abílio e participara na regata dentro do barco do ti zé rebeço, com o o ti manel antão)

OBRIGADO POR TUDO TI ABÍLIO, FORAM MOMENTOS QUE NUNCA ESQUECEREMOS E QUE, QUEM VIR ESTAS IMAGENS, TAMBÉM NÃO CONSEGUIRÁ ESQUECER.

(as fotos que constam do registo são da autoria de carlos lopes franco)