eu

existe o sonho
e a realidade
entre ambos
numa linha
apenas numa linha
quase invisível
quase nada
existo eu
existo eu
existo eu
eu

(torreira; regata da ria; 2010)
eu

existe o sonho
e a realidade
entre ambos
numa linha
apenas numa linha
quase invisível
quase nada
existo eu
existo eu
existo eu
eu

(torreira; regata da ria; 2010)
do fotógrafo

no tribunal do tempo
o fotógrafo é testemunha
ou está presente
ou nunca existiu

(murtosa; regata do bico; 2010)
sou vela

a bordo do moliceiro do ti abílio
abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que
ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos
ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos
vim de longe
não sei para onde vou
nem quando
mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela
mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias
sou vela

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”
(torreira; regata do s. paio; 2016)
o meu amigo ti zé rebeço

o ti zé sempre
que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?
o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?
um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda
amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra
ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui
(regata do bico; 2016)
o vídeo da regata
(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.
o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.
este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.
procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
meditação com moliceiros

se o passado
te matou o futuro
vive o presente
urgentemente

(torreira; s. paio; 2014)
“moliceiro”

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro
queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir
do ser
enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos
por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver
a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves
“moliceiro”
(regata da ria; 2013)
“o moliceiro e o fotógrafo”

o carlos lopes franco e o ti abílio
4 de setembro de 2016, dia maior das festas do s. paio, na torreira: DIA DA REGATA DOS MOLICEIROS.
o maior desejo de qualquer amante da fotografia é participar na regata e fotografá-la de dentro de um barco, mas o regulamento só deixa que a tripulação seja no máximo de 3 camaradas e como são sempre os necessários, este desejo não passa disso.
no s. paio de 2016 reparei que o ti abílio parecia ir navegar sozinho e eu e o carlos lopes franco, que tinha vindo de lisboa para fotografar a regata …… o vento não era muito e perguntei ao ti abílio: quer dois camaradas que não vão fazer nada? a resposta foi imediata: saltem para dentro.
no breve registo que aqui fica, pode ver-se a energia de um homem com 80 anos de idade ao leme de um moliceiro e como o faz navegar sem ajuda de mais ninguém.
para os que gostam da brejeirice de alguns painéis de moliceiros fica também um apontamento de um momento de brejeirice a bordo do barco, um momento “à ti abílio”. é preciso conhecê-lo.
não é fácil repetir registos como este, não será perfeito, mas foi o possível tendo em conta o saber do operador de câmara: eu.
não houve qualquer acrescento de música de fundo porque quis que o registo fosse o mais fiel possível ao vivido. por precaução a câmara estava protegida contra qualquer projecção de água, pelo que a captação de som é algo deficiente. melhorei-a como pude mas sem inventar.
e….. ainda há mais. Cada tripulante tinhea direito a uma medalha de participação, nem eu nem o carlos algumas vez pensámos nisso, mas o ti abílio pensou e sai-se com esta:
– AS MEDALHAS SÃO PARA O CRAVO, PARA O SR. CARLOS E PARA O OUTRO AMIGO DE LISBOA (o josé silveira que tinha conhecido o ti abílio e participara na regata dentro do barco do ti zé rebeço, com o o ti manel antão)
OBRIGADO POR TUDO TI ABÍLIO, FORAM MOMENTOS QUE NUNCA ESQUECEREMOS E QUE, QUEM VIR ESTAS IMAGENS, TAMBÉM NÃO CONSEGUIRÁ ESQUECER.
(as fotos que constam do registo são da autoria de carlos lopes franco)
em louvor do moliceiro

o mestre zé rito e o avelino
fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles
queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho
e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho
tenham piedade de ti
que eu não

ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais
(torreira; agosto de 2016)
porque hoje, no brasil, é dia
nacional da fotografia e do fotógrafo

o A. Rendeiro, com o ti zé rebeço ao leme e o manuel antão
para que se lembrem
ou acordem
os que podem querem e mandam
mas parece não saberem
que este pode ser
um dos motores do turismo temático
da ria
onde de novo
produzirá riqueza
assim o queiram
assim o saibam
assim o não ignorem
maltratem ou dele descuidem
para mim é dele o dia

(torreira; regata do s. paio; 2014)
é tempo de moliceiros

abílio fonseca (carteirista)
há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam
há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre
para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado
em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram
para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega
é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

80 anos de fibra
(regata do s. paio; 2016)