o cancelamento da regata da ria e o apoio aos moliceiros


considerando os prémios de participação e de mérito, o máximo que um moliceiro pode totalizar com as regatas do bico na murtosa e a do s. paio na torreira, será de 900 euros, tendo para tal de ficar em primeiro lugar nas duas.

uma vez que os custos de manutenção e pintura dos barcos para participarem nas regatas, nunca é inferior a 1.000 euros, compreender-se-á facilmente que, este ano, foram os donos dos barcos que participaram nas regatas, quem efectivamente financiou o turismo da ria.

esperemos que para o ano tal não volte a acontecer e que estes homens vejam reconhecido o seu esforço, amor e empenho na manutenção de uma tradição que os viu nascer e que consigo levam até onde ….

para eles, mais que um aplauso, um abraço solidário e reconhecido pelo que são: PORTUGUESES

(regata do bico; 2012)

vou com os barcos


ergo as palavras
sobre pedras
duras afiadas

as da calçada dos dias
que percorro

procuro o vento
que as leve
onde areias sorrisos
corpos desejos carícias

e as deixe cair
sonoras brutas
nos lagos
podres das avenidas

até lá
continuarei ainda
a estar vivo e a falar
desta coisa coisa chamada
fome de justiça
e amor às coisas da terra

assim me tomem
ou rasguem
vou com os barcos

(cais do bico; murtosa; 2011)

a minha ria


é esta a minha ria
a da sobrevivência
das artes
aqui
homem e mulher
são camaradas
em tudo
iguais

o pão que comem
colheram-no
ambos
da mesma fonte
 
é esta a minha ria
a da resistência
da solidariedade
a que nem todos vêem
a que alguns mataram conscientemente

mas que é
a mais bela ria
do mundo

(murtosa; cais do chegado; carregar caranguejo)

o safar das redes na arte solheira (I)


a dança do safar

na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.

durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.

olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem

(cais do bico; murtosa; 2010)

salvé césar gorim


(o guiador da bicicleta; murtosa; s/d)

guiador guia-me

ensinou-me a amar a ria
de miúdo levava-me pelos canais

da palavra ensinou-me o valor
da verdade ensinou-me a dizê-la

dos homens o respeito e o amor
ao próximo

em 1978 partiu
a mim só me deixará
quando eu partir também

quando com ele
bom dia senhor césar e companhia
assim cresci na murtosa

salvé césar gorim

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)