o tempo é pouco

o ignorante
não sabe que não sabe
o sábio
sabe que não sabe
os que não sabem
nem querem saber
ensina o sábio
que se ignorem
o tempo é pouco

(torreira)
o tempo é pouco

o ignorante
não sabe que não sabe
o sábio
sabe que não sabe
os que não sabem
nem querem saber
ensina o sábio
que se ignorem
o tempo é pouco

(torreira)
urgente

a picada do peixe aranha
provoca uma dor horrível
há porém quem os coza
e saboreie como petisco
é tudo uma questão
de treino e sabedoria
a culinária é uma arte
que tenho de aprender
rapidamente

(torreira; companha do marco; 2011)
por vezes leio jornais

cabrita de pé
sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos
sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns
sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias
sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto
sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são
eles também
e há quem saiba muito mais
eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

muito dura a arte da cabrita
(torreira; cabrita de pé)
monólogo do moliceiro

o moliceiro “Zé Rito” já na frente
só o vento
sabe porque vou resistindo
só o vento
e os homens que o meu nome
carregam

e ficou em 4º lugar
(regata da ria 2016)
boas fotos

chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo
disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif
e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?
e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?
então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso
boas fotos

(torreira; junho; 2016)
falo do tempo

a nortada leva o tempo
vive
hoje
amanhã
é ontem
vive

se há beleza é porque a vês quando olhas
(torreira; regata da ria; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
estive aqui de férias

no verão de 2013, o cipriano carrega o saco na zorra
olhar sem sentir
olhar apenas sem pensar
estou aqui de férias
ilusão tudo o mais
para além de mim
quem cá está
cá ficará
eu partirei
sem saber se
o meu amanhã
é em toda a parte
o meu ontem
passou por aqui
o que fui é o ser
assim onde estiver
há mais mar que homens
há mais sonho que rebanhos
não preciso de pastor
basta-me o barco
que trago dentro de mim
vou comigo
para que sejam
e continuem
estive aqui de férias

cipriano brandão, em 2013 (o vício do mar)
(torreira; companha do marco; 2013)
também não sei

quando tiver vela será livre
(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)
que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas
conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser
que coisa é o homem?
boa pergunta carlos
também não sei

encalhada e bela, nada mais digo dela
coimbra, 28 de junho de 2016.
há exactamente 6 anos, o poeta joão damasceno partiu e deixou-nos as suas palavras, ou seja, ficou mesmo tendo partido.
deixou-nos um livro por editar ” CARTA DE PROBABILIDADES DE EROSÃO CELESTE”. o lançamento desse livro – composto e impresso pelo irmão rui damasceno, na tipografia da família – realizou-se hoje na casa da escrita, em coimbra.
este vídeo pretende apenas mostrar alguns excertos da homenagem.
a seu tempo publicarei a versão integral.
hoje houve uma geração que se chamou “joão damasceno” .
(a sessão foi aberta pelo curador da casa da escrita, antónio vilhena, e a apresentação do poeta feita por joão rasteiro. paulo archer falou sobre a obra e a vida do amigo joão. a poesia foi dita pelo irmão rui damasceno acompanhado pelo sobrinho pedro damasceno)