regata da ria 2016 (1)


o homem e o Homem

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nunca saberás a força
que os move
o amor nesta mãos
floresce vela

a ciência que ambiciona
tudo querer explicar
queda-se muda
perante estes homens

do amor que os cega
se valem os que nada mais vêem
que dinheiro fácil

de muito poucos
se refazem muitos e remoçam

a regata da ria 2016
começou
quisera eu algo mais

o homem é o maior
inimigo do Homem

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(torreira; 27 junho de 2016)

os moliceiros têm vela (222)


até amanhã ao sol

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estou cansado
de tantas lutas
tantos anos

dou-me porque sim

porque sou
esta cabeça lucidamente
tonta de tanto sonho

continuo a não ser daqui
sem saber de onde sou

mas continuo
não precisam de contar
comigo eu conto

pararei quando
chegar o dia de parar
de vez de vez

até amanhã ao sol

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(torreira; regata do s. paio; 2015)

crónicas da xávega (170)


só

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2009, a muleta tradicional

sou
o que se foi fazendo
os princípios sempre
as pedras e os afagos também
não o outro o que gostariam
que apesar tudo
continuasse
a ser

o que me dói ser assim
o ter chegado ao que sou
eu por dentro e por fora de mim
escrevo-o com lágrimas
e raiva raiva raiva raiva

um dia vou acordar nunca
para ser eu

só

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com o tempo muito se altera, as coisas e as pessoas. já lá vão 7 anos

(torreira; companha do marco; 2009)

 

os moliceiros têm vela (220)


hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o ti virgílio no sara e cristina

na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava

pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória

partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido

onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu

abraço-os a todos
porque como sempre

hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio

(murtosa; regata do bico; 2008)

crónicas da xávega (169)


hoje sou puto

(para o meu amigo ricardo)

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o ricardo, o sílvio e ao fundo a aurora e a cacilda

continuo a chamar-te puto
e já és maior que eu
mas eu também envelheci
não é puto?

o barco é novo mas nós
conhecemo-nos
no primeiro M. Fátima
e cá estamos

tu feito um homem de mar
eu com a minha máquina
a salgar imagens na memória

olha ricardo
quando digo “puto”
também eu
continuo a pensar
que não envelheci

já lá vão onze anos
puto
onze anos e foi ontem

mas hoje
hoje sou como tu

hoje sou puto

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o ricardo e o calão

(torreira; companha do marco; 2016)

os moliceiros têm vela (219)


da memória e das palavras

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o ti zé rebeço

olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.

e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.

na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….

hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.

voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:

– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)

postais da ria (171)


hoje sou âncora

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o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

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uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)