postais da ria (160)


nem isso

(TABACARIA

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
………………. 

Álvaro de Campos)

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sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco

esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se

ao fundo
muito ao fundo
uma voz

nem isso

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(torreira)

postais da ria (158)


o meu amigo raul

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como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo

parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família

é no alto mar
que fazem vida os homens daqui

a ria é cada dia mais
para quem espera partir

ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo

o caminho raul
é para a barra

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(torreira)

postais da ria (157)


a magia da ria

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há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

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o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)

postais da ria (156)


abril vinte e cinco e os cravos

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dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso

não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto

aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves

ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?

nunca se sabe

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(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (205)


abril vinte e quatro

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abril vinte e quatro
mil nove setenta e quatro
não sabíamos de amanhã
do amanhã que hoje
sabemos que ia ser

recordo os mortos nas
guerras criminosas no
silêncio das prisões às
mãos sádicas de não homens
que vimos condecorados
para nossa vergonha
depois de

abril vinte e cinco
quarenta e dois anos depois
é amanhã e podemos sair
à rua e por sermos mais de dois
não seremos presos

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (154)


dar voz a quem

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saco seco, sacudido, para cima da zorra

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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a companha são todos

(torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (155)


estar vivo é perigoso

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olhar para dentro de tudo

só te saberás
se tentares ser mais

o mais desculpas serão
para seres o de sempre

o do sofá da sala
do pão certo à hora certa
sobrevivente de ti

estou cansado até
ao mais fundo de mim
doo-me de tanto

estar vivo é perigoso

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fotografar é sentir com os olhos

(torreira; s. paio; 2014)