chama-se marta

como se descobrisse a luz
chama-se marta
faz hoje um mês
é a minha terceira neta
faz hoje um mês
que nasci outra vez

como se o início de tudo
(murtosa; regata do bico; 2010)
chama-se marta

como se descobrisse a luz
chama-se marta
faz hoje um mês
é a minha terceira neta
faz hoje um mês
que nasci outra vez

como se o início de tudo
(murtosa; regata do bico; 2010)
HOMENS

a pancada é dura
sei que antes de entrarem
no barco olham o mar
sei que se benzem
sei que têm fé
sei que precisam de
ir ao marpara ganhar a vida
porque gostam
porque é um desafio
porque são HOMENS

HOMENS
(praia de mira; companha do zé monteiro; 2010)

o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga
ao fundo virá o saco
no fundo do saco, talvez peixe
se peixe houver, que peixe será
se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão
é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente
quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.
quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar
traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

(torreira; companha do marco; 2013)
meditação breve

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

(torreira; companha do marco; 2009)
cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais
boas manel

éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos
quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo
só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar
direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado
começo a ter muitas respostas
de silêncio
mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas
quarenta e cinco anos manel
é muito tempo
mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é
abraço manel
é bom estar contigo

(ria de aveiro; cais do bico)
a escolha

estar vivo será perigoso
calmo sossegado
é não estar
a escolha não é tua

(torreira; regata do s. paio; 2013)
temer e ousar

a difícil arte de arribar
tratar o mar por tu
é arte de poucos
saber antigo
feita de
temer e ousar

só quem não sabe pensa que é fácil
(torreira; companha do marco; 2010)
o instante

o regresso
hoje é ser eu aqui
o momento é agora
o tempo todo
é coisa nenhuma
respiro o instante

(ria de aveiro; torreira)
aos senhores da terra

toda a beleza dos moliceiros
queria acreditar em vós
em tudo o dizeis
ouço-vos atento
mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa
(torreira; regata da ria; 2010)
panamá

o saco chega à praia
é verdade pá
não conheço nenhum pescador
com conta no
panamá
só encontro
uma resposta
trabalho duro
não dá
p’ra ter conta
no panamá

trará peixe? o resultado é sempre incerto
(torreira; companha do marco; 2009)