vida

nada é tudo
tudo é nada
muito é pouco
pouco é muito
vida

(torreira)
vida

nada é tudo
tudo é nada
muito é pouco
pouco é muito
vida

(torreira)
quem dera tu

os dias têm o tamanho
de sempre
mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas
acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã
o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos
divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso
não te escrevo
escrevo-me
os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também
quem dera tu

(murtosa; regata do bico, 2012)
dos euzinhos

que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa
escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia
mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais
lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar
não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si
euzinhos

(torreira; companha do marco; 2009)
ser quase nada

a ria por destino
ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais
escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão
tantos
julgam ser
quase tudo

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira
(torreira; marina dos pescadores)

retrato do poeta enquanto jovem artista
no dia 21 de março, dia mundial da poesia, a livraria “lápis de memórias”, em coimbra, joão damasceno foi o poeta.
a sua poesia dita pelo irmão rui, acompanhado pelo sobrinho pedro e joão queirós (à viola), lembraram aos amigos o homem e o poeta e, a quem o não conhecia, a força da sua criatividade poética.
desses momentos aqui fica o registo possível e o abraço de um amigo
João Damasceno
Coimbra, 1955-2010.
Licenciado em História pela Universidade de Coimbra, iniciou a sua vida profissional como professor do ensino secundário em Angola. Voltou para Portugal onde deu aulas em várias localidades em todo o país, inclusivé nos Açores. A sua obra foi composta e impressa na tipografia da família, salvo o Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel.
Obra publicada:
1983, Corpo Cru, Fenda;
1985, Alma-Fria, Sketches Policiários, Fenda;
1986, Cinco Suicídios, Fenda;
1989, Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, Fenda;
no prelo, Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, Tipografia Damasceno.
“Poema de JOÃO DAMASCENO
NOVA CARTA AOS PSIQUIATRAS
Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo
Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso
Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor
Deram-me os vossos comprimidos:
Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates”
in ” Corpo Cru”
penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
até um dia

o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador
não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles
são o silêncio
o murmúrio
a resignação
falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será
esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles
têm no rosto escrita
a vida
até um dia
serão apenas
o país profundo
até um dia

dar-lhes voz
(torreira; companha do marco; 2013)
cabrita alta

joão manuel dias
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?
os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas
tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados
o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
quero que os sintas
ao leres

no fundo da ria e cabrita arrasta
(torreira; cabrita alta; 2012)
tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
o cinismo reina

mãos de mar, mãos de trabalho
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado
as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos
porque não algemam
as mãos que fazem armas?
o cinismo reina

mãos salgadas, mãos de pão
(torreira; companha do marco; 2013)