postais da ria (163)


em torno de mim

0 ahcravo_DSC_8662 bico bw
impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

0 ahcravo_DSC_8662 bico c
(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (212)


espero

0 ahcravo_DSC_4203 bw
espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta

espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala

espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso

sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas

espero
mas não muito

0 ahcravo_DSC_4203

(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (160)


só esses

0 ahcravo_DSC_4527 bw

a companha carrega o saco na zorra

vêm da terra as vozes
que não ouvimos
o termos nela raízes
é o silêncio de sermos
sem necessidade de alarido

escrevo nós
e não é o pronome que ouço
são os laços
tão fortes e tão frágeis
que o tempo romperá a seu tempo

não precipites os dias a haver
vítima serás
se carrasco quiseres ser

abraço quem me abraça
escreveu o poeta
eu também

só esses

0 ahcravo_DSC_4527

todos unidos, são a companha

(torreira; companha do marco; 2015)

os moliceiros têm vela (211)


“CORREIO

Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.

………..

Manuel Alegre

0 ahcravo_DSC_1263 bw

dou-vos a minha palavra

desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida

sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam

sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca

cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança

dou-vos a minha palavra

0 ahcravo_DSC_1263

(cais do bico; murtosa)

postais da ria (160)


nem isso

(TABACARIA

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
………………. 

Álvaro de Campos)

0 ahcravo_ DSC_8549 bw

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco

esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se

ao fundo
muito ao fundo
uma voz

nem isso

0 ahcravo_ DSC_8549

(torreira)