crónicas da xávega (309)

crónicas da xávega (309)


devaneio
 
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nua de bruços
corpo aberto em flor
 
esperas um deus
fugido do olimpo
eternizado numa estátua
de mármore na grécia
que visitaste um dia
 
nua de bruços
corpo aberto em flor
 
beijo-te a nuca
afago-te o crâneo
demoram-se no pescoço
os lábios
iniciam o caminho
que pela coluna
os levará até onde
um breve sulco
 
recomeço pelos pés
e subo lentamente
sinto nas pernas
o eriçar de pelos ínfimos
 
chego enfim à nascente
de ti
saboreio-te devagar
 
súbito
o corpo domina-te
estremece acende-se
 
então viras-te
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(torreira; 2013)
crónicas da xávega (308)

crónicas da xávega (308)


o poema
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torreira; o recolher do saco; 2016 – irá a zorro na zorra para ser seco

 
se fossem música
estas palavras
seriam poema
 
é do poeta escrever
música com palavras
 
diz o que lês
como o sentes
ouve-te
 
porque é para ser dito
que foi escrito
como se música outra
 
ou
não é ainda o poema
 

postais do arroz (7)


digo-te
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borda do campo; rio pranto; corrida das barcas; 2019

digo-te que existo
mais nos espaços em branco
onde me escondo
que neste juntar de palavras
em que pretensamente
me vou dizendo
na corrida sôfrega dos dias
gasto-me de tanto sentir
nada mais
te posso oferecer

postais da ria (303)


outro eu
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todos os dias
perco memória
todos os dias
me reaprendo
 
palavra a palavra
recupero do silêncio
as memórias idas
 
e o ter esquecido
é um outro eu
o eu aqui agora
 
como se outra casa
outra porta
para outro mundo
 
(torreira; safar redes; 2018)