os moliceiros têm vela (218)


assassino

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pelo mesmo nome responde o homem e o barco

enorme o barco
maior o homem

respondem pelo
mesmo nome
e não sei quem
primeiro foi

se o barco
se o homem

morrerá o barco
com ele o homem

digo então
que quem matar o barco
mata o homem

não importa
se por ignorância
ou incúria

quem o fizer
será sempre

assassino

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sempre pronto para a brincadeira, um moliceiro com paixão, o ti abílio

(torreira; regata da ria ; 2011)

postais da ria (170)


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o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

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o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)

 

 

postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

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o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

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pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

postais da ria (167)


unem-se na partida

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o nelson arruma as redes, vai para o mar

arrumar as redes
é arrumar os dias

é tempo de partir
de ir ganhar a vida
que na ria se gasta

o arrasto o bacalhau
a pesca do alto

na ria não se faz vida
a desunião desfaz a força

unem-se na partida

0 ahcravo_DSC_1901 nelson acabou

só parte quem ficando não faz vida

(torreira; 2016)

 

os moliceiros têm vela (216)


hoje continuo a ser eu

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o moliceiro “zé rito”

chegar ao mar
dizer bom dia à ria
ver sentir ser

esquecer tudo
viver apenas
o que os olhos

o deslumbramento
é breve

sinto na carne
a faca que me espetaram
e tudo se esvai

soma-se o que oiço
a exploração dos pescadores
o ludíbrio dos moliceiros

a verdade é mais forte
que toda a beleza
e o instante passou

por muito que me doa
hoje continuo a ser eu

SONY DSC

manejam os barcos com a mesma arte com que são manejados

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (212)


espero

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espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta

espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala

espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso

sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas

espero
mas não muito

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(torreira; regata do s. paio; 2012)