da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
“CORREIO
Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.
………..
Manuel Alegre

dou-vos a minha palavra
desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida
sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam
sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca
cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança
dou-vos a minha palavra

(cais do bico; murtosa)

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS
enviem esta mensagem para:
geral@regiaodeaveiro.pt
que é o mail da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – Baixo Vouga (CIRA), organizadora da regata da ria 2015.
não basta gostar dos moliceiros é preciso lutar por eles e com eles
geral@regiaodeaveiro.pt – PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS

(torreira; regata da ria; 2013)
nem isso
(TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
……………….
Álvaro de Campos)

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco
esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se
ao fundo
muito ao fundo
uma voz
nem isso

(torreira)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
pagai

falo dos moliceiros
e digo os homens
que do mesmo nome
arrolados
(linguagem de moliceiro)
os que não pagando
deles se servem
quais senhores feudais
dos tempos modernos
vassalagem quereis?
pagai-a então
que de palavra honrada
devíeis ser
homens

(torreira; regata da ria; 2010)
o meu amigo raul

como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo
parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família
é no alto mar
que fazem vida os homens daqui
a ria é cada dia mais
para quem espera partir
ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo
o caminho raul
é para a barra

(torreira)
tende vergonha na cara

há moliceiros na ria
à espera que lhes paguem
até quando?
não acham que já chega?
como diziam os antigos:
tende vergonha na cara!

(torreira; regata da ria; 2010)