sobram palavras
hoje
guardo as palavras
para outro dia
chove em junho
o sol tarda
com ele o sal
não sei
quando o verei tirar
mau vai o ano
para quem dele vive
sobram palavras
onde o sal falta

(morraceira; tirar; 2016)
sobram palavras
hoje
guardo as palavras
para outro dia
chove em junho
o sol tarda
com ele o sal
não sei
quando o verei tirar
mau vai o ano
para quem dele vive
sobram palavras
onde o sal falta

(morraceira; tirar; 2016)
meditação
não tentes
entender tudo
procura entender-te

(armazéns de lavos; mexer; 2017)
pois
antes de haver ponte
havia o rio e nadei
de todos os caminhos
fiz o meu
de todas as escolhas
fiz as minhas
fizeram-me para que
fizesse
mesmo sem o saberem
como sempre
fiz faço farei

o meu amigo buíça
(armazéns de lavos; achegar; 2017)
eu abri as portas da gaiola
(….eles passarão
eu passarinho
“mário quintana”)
não sei de bancadas
nem de lugar à sombra
gosto de sol e mar
e da força da vagas
ficou vazia a cadeira
que me guardaram
recuso o caminho palavroso
onde não nasceram gestos
cantam de poleiro
aves de arribação
eu abri as portas da gaiola
para voar
é tarde para me cortarem
as asas

o meu amigo paulo formiga
(armazéns de lavos; mexer; 2016)
(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
dádiva
é da natureza do sal
a brancura
mesmo se amarga
falso o branco
do açúcar
ainda que doce
um punhado de sal
é pura verdade
toma-o recebe-a

(armazéns de lavos; flor de sal; 2017)
dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
é tempo de sal
é verão
sobre o corpo o sol
arde queima greta
as horas escorregam
devagar
ao comprido do dia
os cristais formam-se
ao ritmo
do sol da água do homem
é tempo de sal
no talho

é conhecido por “buíça” e aos 81 anos é um dos mais idosos marronteiros do salgado da figueira
(armazéns de lavos; achegar; 2017)
tenho sede
tenho a boca seca
de tantas palavras
e tão pouco nelas
como são pequenas
querendo ser algo
intenção apenas
um copo de água
um abraço
um ombro onde
escreva o poeta
poemas
eu quero gestos
tenho sede
da que se mata
com água

(armazéns de lavos; achegar; 2017)