percurso
de desilusão
em desilusão
até à ilusão final

mexer
(armazéns de lavos; mexer; 2017)
percurso
de desilusão
em desilusão
até à ilusão final

mexer
(armazéns de lavos; mexer; 2017)
herança
dou-te o que me deram
serás não o que fui
mas mais muito mais
que doutras artes
mestre serás
serei em ti
a memória do gesto
do saber antigo
doutras vidas
herança de saberes
a que te deixo
farás por mim sal

(morraceira; 2016; rer)
sal do mar
no primeiro dia do ano
seja do mar o sal
tempero dos dias a vir
sol que nos espera
sal do mar sol à mesa

(morraceira; rer; 2017)
das crianças
sei da inocência das crianças
por isso não estranhes
que as ame
são minhas irmãs todas

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
o milagre do sal
vamos encaminhando
a água
até chegar aos talhos
em dias de sol
forma-se o sal que nós
com trabalho e suor
tiramos
como é que a água
se transforma em sal
isso é milagre
assim me explicaram
de forma clara e simples
não ganham que baste
para contratar consultores
que lhes expliquem
o milagre

rer
(morraceira; 2016)
meditação com sal

paulo formiga a “mexer”
os dias serão
sempre que tu
inteiro neles
(mexer; armazéns de lavos; 2017)
é sempre verão
o servo
do senhor recebia
a parca paga e era sal
o vassalo
tempera as palavras
com ervas aromáticas
o senhor sorri
para ele é sempre verão

(rer; armazéns de lavos, 2017)
achega

achegar
fácil julgar o ontem
com os olhos de hoje
tão fácil que até tu
de juiz te vestes
papagaio
(morraceira, salina dos doutores; 2017)
sou onde estou

rer
o meu lugar
é aqui
o meu tempo
é agora
a minha gente
é aqui e agora
sou onde estou

rer
(armazéns de lavos; 2017)
o trilho estreita-se

diz-se “mexer” (buíça)
o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique
a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado
inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso
mas
não foi sempre assim?
(armazéns de lavos; 2017; mexer)