são as pequenas coisas
que falam a linguagem da amizade
os pequenos gestos os silêncios
um chocolate preto

NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
posso calar tudo o que dentro
de mim ferve e se impõe
contra o silêncio a prepotência
NÃO
o ter armas poder dinheiro NÃO
tem força de lei mas sim
marginais loucos engravatados
NÃO
aceito a conversão de dólares
em crianças assassinadas
o lucro cego pago com sangue
NÃO
chamem-me perigoso terrorista
escrevam o meu nome
a vermelho mas ESCREVAM que
NÃO me verguei nunca
NÃO
ao GENOCÍDIO em GAZA
ao governo de netanyahu
NÃO à GUERRA SIM à PAZ
PALESTINA LIVRE
(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2017)
escolho escolher
escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando
eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas
não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha
é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate
(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)
cavar fundo
revolver a terra
cavar mais fundo
abrir pedras
na raiz da palavra
o coração do poeta
saboreio o fruto
digo o poema
(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)
nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)
” … quando puder venha nos visitar, alguns de nós sentimos a sua falta … já fazia parte da nossa história … da torreira, era e é um de nós.”
(joão manuel brandão)
(torreira; 2012)
(nota: foto publicada com autorização do retratado. o registo foi feito a bordo da bateira, no final de uma sessão de mariscar com o uso de cabrita alta)
a palavra escrita digo
devagar soletro
a emoção com os dedos
cego caminho pelas letras
repito-me repetes-me
eu sou as minhas palavras
pensava que o sabias
que me ouvias e era gravura
antiga em rocha dura
o que te dizia
sabes não há verdades
eternas nem mentiras que muito
durem o sol hoje é lá fora
não o será sempre
que outras estações virão
(xávega; aparelhar; torreira; 2013)
hoje é dia de s. paio
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos
é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros
os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros
os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca
os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema
(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)