crónicas da xávega (345)


descrente
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costa de lavos; 2017

 
escrevo hoje o tempo
com o tempo que tenho
não será muito digo
mas é o meu tempo
 
no caminho dos dias
é nos outros que o vejo
em mim que o sinto
 
ao tempo que foi e
ontem ainda
 
gasto o tempo até ao esqueleto
branco do ínfimo segundo
 
não creio na reciclagem dos dias
também nisso a minha descrença
 

crónicas da xávega (343)


o poema
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(torreira; 2010)

colhe de madrugada
as mais límpidas palavras
orvalhadas de sonho
no côncavo das mãos
sente-as crescer
sente-as
depois ergue os braços
entrega-as
à brisa da manhã
não importa se as conheces
sequer se as amas
liberta-as
serão elas o poema
que nunca escreveste

crónicas da xávega (342)


uma rede incerta
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torreira; 2012

 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
por sobre o vazio uma rede
muitas redes
alguns nós
tanto eu
 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
há ainda o mar e um
navio ao longe
ao longe
parte
 
nunca ser barco
foi tão urgente
 
por sobre o vazio
uma rede
incerta
 

crónicas da xávega (341)


sinto muito

 

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do sentir às palavras
que o dizem
os poetas
 
escrevo apenas
porque é outra forma
de estar comigo
 
sei que não me traio
sinto muito
as palavras dos outros
 
sinto muito
que sejam o que são