construção de um moliceiro (10)


23 de agosto

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hoje o pintor josé oliveira continuou a decoração dos painéis, com a ajuda do pai -necas lamarão.

o pai ajuda, e bem, na pintura das bordaduras, ficando a decoração dos painéis a cargo do filho.

neste registo necas lamarão pinta as bordaduras do painel de estibordo da ré e josé oliveira, ao fundo, as do painel de estibordo da proa.

durante alguns dias não publicarei mais registos da construção, até que surja um momento de envolvimento colectivo.

não demorará muito………..

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(torreira; 23 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (8)


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21 de agosto

hoje acabou-se o fecho dos costados do moliceiro.

neste registo o ti alfredo do táxi – porque foi dono do primeiro táxi da torreira, antes de emigrar – segura a tábua que o mestre zé rito aplaina e irá ser colocada na parte inferior da proa, a estibordo.

para fechar totalmente o barco, ficam só por colocar as tábuas de fecho do fundo.

amanhã começa o trabalho de decoração do barco, a cargo do pintor zé oliveira que, há cerca de 25 anos, decora moliceiros e para os quais vai inventando os temas que tão bem caracterizam os painéis. vamos ver o que sai desta vez.

quanto à colocação da tábua, depois de afeiçoada, não fiz qualquer registo porque…. fui membro da equipa do turno que a aguentou enquanto o mestre a fixava.

(torreira; 21 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (7)


20 de agosto

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hoje começou a pintura do moliceiro.

a elegância da forma, as cores com que é pintado, a decoração global do barco, fazem dele qualquer coisa de único e extraordinariamente belo.

seja então hoje a celebração do barco e deixemos que ele nos encha de alegria e de cor.

os sorrisos espalharam-se pelos rostos de todos os presentes: o pincel e o rolo começaram a cobrir a madeira crua e o barco tornou-se coisa viva.

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(torreira; 20 de agosto; 2016)

construção de um moliceiro (6)


19 de agosto

hoje o mestre zé rito, andou entre o acabamento da proa e o leme e pequenas tarefas de aperfeiçoamento. do varrer ao polir, de tudo se fez um pouco e os amigos ajudavam onde era preciso a cada momento.

momentos houve, como todos os dias, em que o mestre trabalhava e conversava com os amigos, dizia piadas e continuava. a obra é um acto de contentamento e não o resultado de um sacrifício.

emigrantes, reformados, pescadores, turistas …. muitos foram os que por ali passaram, os que ali ficam e convivem.

dos muitos momentos vividos ao longo do dia, fica o registo último que fiz antes de os deixar: o colocar do último “cunho” do castelo da proa, depois do “bertente”.

como já escrevi, este não é um diário técnico, nem o pretende ser, é isso sim, uma memória dos dias vividos junto à ria à mesa de um moliceiro em construção.

como disse o setenove, em torno ” de mais um filho da ria”.

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o mestre zé rito coloca o último “cunho”

(torreira, 19 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (5)


18 de agosto

hoje o mestre zé rito continuou a trabalhar em pequenos, mas importantes detalhes da construção, nomeadamente a quase conclusão da bica da proa e ponteiras.

registei, pela sua valia humana de solidariedade e amor, o momento em que todos os que foram precisos ajudaram a colocar a tábua de baixo, do costado de bombordo.

tirando uma pequena lacuna na ré, o bombordo ficou fechado – até à hora em que saí do estaleiro.

talvez amanhã quando lá chegar já esteja fechado. quando saí ontem faltava colocar a tábua de baixo do costado de estibordo à ré, hoje de manhã já estava no sítio.

o barco vai-se fazendo de acordo com o saber do mestre, com os métodos herdados na sua aprendizagem e aperfeiçoados no seu fazer diário. de acordo com o seu tempo.

não sou técnico, sou o que olha e vê os homens e um barco que pulsa dentro deles e os faz rir e conviver, como se em torno de uma mesa farta.

o tempo aperta, o mestre não descansa, os amigos esperam, plateia atenta, que um pedido surja e logo é satisfeito.

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construção de um moliceiro (4)


17 de agosto

hoje começou o fecho do barco.

o mestre zé rito afeiçoou a segunda tábua de costado de bombordo e procedeu-se à sua fixação.

do fazer de cavilhas de madeira, que se vêem ao longo da tábua, até aos ângulos de corte da tábua e ao molde para o fazer, muitas foram as pequenas tarefas e alguns os conceitos novos que aprendi.

para a colocação da tábua e ajuda à sua fixação de novo, como sempre, apareceram amigos prontos a ajudar.

ao fixar neste registo o barco, já na sua forma final, e um homem de costas – que eu sei que é o avelino – quero simbolizar TODOS os que, de algum modo, têm estado presentes durante a construção do moliceiro e, com todo o empenho possível, têm dado o seu contributo para a construção.

a cada dia que passa, mais vejo esta construção como a GRANDE CELEBRAÇÃO COLECTIVA E ESPONTÂNEA DA RIA.

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(torreira; 17 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (3)


16 de agosto

depois das tarefas que envolveram grande número de amigos, entramos na fase dos pormenores.

nos últimos dias o mestre zé rito tem vindo a trabalhar no afinamento de pequenos detalhes, colocação das ponteiras da bica da proa, pequenas peças na bica da ré, emassar e polir madeiras.

hoje ficou concluída a colocação do traste e ficará ainda colocada a peça que aqui registo: o vertente (bertente).

colocado do lado da proa da quinta caverna, começa nele o castelo da proa e nele termina o coberto do castelo da proa.

juntamente com o traste são peças de colocação transversal que dão rigidez à estrutura.

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postais da ria (184)


o cigano

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onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

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(torreira; porto de abrigo; 2016)

postais da ria (183)


o meu país arde

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9 horas da manhã e era noite

o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos

o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados

o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos

o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram

quem se lembrou deles então?

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haverá beleza no inferno?

(torreira; 8 de agosto de 2016)

crónicas da xávega (179)


meditação breve

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carrega-se o saco para dar a volta ao barco pela ré

como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias

tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes

caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens

teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer

acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

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não há máquinas para estas tarefas: há homens

(torreira; 2010)