regresso ao sábio labor
das pequenas malhas
à paciência do pescador
encontro o homem
escuto-o e aprendo
vão colhendo as malhas
gélidos os dedos do meu amigo
dentro do barco agulha na mão
um homem bom espera melhores dias
um homem bom que repara redes
porque não pode reparar os dias
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada
homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações
foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre
às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)