(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
por vezes dói
habito
o meu tempo
e sou
por vezes dói
recuso-me
a não ser
recuso-me
por vezes dói
eu sou eu
mesmo se
por vezes dói

(armazéns de lavos; enfeitar; 2017)
percurso
de desilusão
em desilusão
até à ilusão final

mexer
(armazéns de lavos; mexer; 2017)
amar o sal
escrevo sorriso
com s de sal
sou feliz aqui

gilda saraiva, presidente da figueirasal – associação de produtores de sal do salgado da figueira da foz
(armazéns de lavos; achegar; 2016)
das crianças
sei da inocência das crianças
por isso não estranhes
que as ame
são minhas irmãs todas

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
é sempre verão
o servo
do senhor recebia
a parca paga e era sal
o vassalo
tempera as palavras
com ervas aromáticas
o senhor sorri
para ele é sempre verão

(rer; armazéns de lavos, 2017)
do sal digo
o mar à tua mesa
dá outro sabor
aos frutos da terra

(armazéns de lavos; 2017)
sou onde estou

rer
o meu lugar
é aqui
o meu tempo
é agora
a minha gente
é aqui e agora
sou onde estou

rer
(armazéns de lavos; 2017)
o trilho estreita-se

diz-se “mexer” (buíça)
o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique
a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado
inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso
mas
não foi sempre assim?
(armazéns de lavos; 2017; mexer)
quando tudo arde

achegar
quando tudo arde
salgam-se as terras
de cinzas
a beleza do sal
é memória
de dias solares
límpidos
toma-a
(armazéns de lavos; figueira da foz; 2017)